Pesquisa de opinião e o voto consciente
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de fevereiro de 2004
Carmelo Zapala Giufrida 
Pesquisa é um ato de ciência que desvela um fato, uma situação ou verdade. Opinião é um saber pessoal raciocinado ou intuído, de uma consciência situada, a respeito de uma situação, evento ou pessoa, o qual direciona e influencia todas as relações do ser com o seu meio. No entanto seria simplista e temerário afirmar que de uma pesquisa de opinião resulta, em seu ponto máximo, conhecer o que cada humano julga a respeito de certo programa ou pessoa.
A pesquisa séria e metódica, por si mesma, não influencia, modifica ou deturpa uma opinião. Porém depois de tratada e propagada exerce uma sutil influência na dimensão social. Podendo levar, os menos vigilantes, à adoção de um conformismo pernicioso, pelo anestesiamento do senso crítico e à indução ao desengajamento no exercício da cidadania.
As agências em particular, e a mídia em geral, sabem que uma pessoa pode cultivar opiniões contraditórias sobre determinado assunto ou pessoa, se estiver opinando como integrante de um grupo social ou político ou como cidadão isolado.
Esta pressão dos grupos além de psicológica é antropológica, pois comum à espécie. É tendência humana harmonizar-se com os semelhantes, raramente ousando perturbar a concordância reinante, emitindo idéia contrária à geral.
A mídia dispõe de todo um arsenal de recursos para criar a ilusão de unanimidade (Está todo mundo usando. Quem? ou É a ultima palavra em... Segundo quem?). Gallup cita o caso dos três alfaiates que escrevem ao rei uma solicitação, assinando-a: ''Nós o povo inglês''.
Quando ''sugeridos'' e ancorados em personalidades-pilotos, artistas ou intelectuais, suas supostas preferências em modas e políticas se tornam irresistivelmente assimiláveis. Assim inúmeras opiniões ''pessoais'' são, na realidade, a resultante de conformismos subjetivos. Estar com a maioria evita angústias e faz surgir uma sensação de poder, de força e de estar fazendo a coisa certa. Muitos vivenciam um sentimento de exaltação ou de medo difuso ao adotar, ou não, certas concepções.
Nestas considerações não pretendemos chegar a uma conclusão sobre um complexo tema onde leis psicológicas se contrapõem à realidade da solidão e da angústia do voto consciente. Onde o livre arbítrio raciocinado pode vencer o fenômeno do contágio e a psicologia da pessoa se debate com a das multidões, segundo Le Bon: ''Besta fera que tanto aplaude como escoiceia''.
Pretendemos aqui apenas trazer à reflexão a importância do ato de escolha de nossos governantes, atentando para as circunstâncias que influenciam nossa livre determinação e como avulta em importância o voto consciente.
Neste contexto, Londrina revela, no mínimo, uma marcante capacidade crítica, pelo fato de, historicamente, nas eleições majoritárias ter elegido, ''de virada'', prefeitos que contrariavam, ao menos em grande parte da campanha, as preferências apontadas pelas pesquisas de opinião.
O aparato tecnológico e o recurso financeiro posto a serviço do convencimento, se rende à vontade soberana de um povo especial, construtor de uma maravilhosa metrópole. Lugar de cidadãos que se negam a ser o inconsciente artífice do próprio infortúnio.
Reagir, com consciência crítica e política, às pressões da mídia, trazendo a tônica do ''eles'' para um ''nós'', construído por ''eus'' vigilantes e atentos, será, nestas eleições, um excelente exercício de cidadania.
Tudo conforme nossa tradição de cidadãos livres e de bons costumes.
CARMELO ZAPALA GIUFRIDA é coronel da reserva da Força Aérea Brasileira e advogado em Londrina
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