Pertencer, a que será que se destina?
Somos todos filhos dessa América que prometeu sonho e vem entregado mais valia
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 2024
Somos todos filhos dessa América que prometeu sonho e vem entregado mais valia
João dos Santos Gomes Filho 
Estacionei a vida em um antigo sentimento (ilhado) que afaga a dor secular de ser, ao tempo em que represa a consciência nos olhos comprometidos em água salgada, marejados de lembranças.
A noite era jovem e as folhas efêmeras – ‘too soon, too soon’.
Estou à espera do ‘continente indissolúvel’ que elevará o ‘esplendor da relva’ ao local onde o sol brilha com intensidade noturna, acima das angústias de uma América dividida e golpeada por suas ancestrais amarras fascistas.
E não. Ninguém ‘à ternura pouca’ deveria se acostumar – nem os poetas...
O dia de hoje, espelhando o que passou, cala o amanhã, enquanto flores magnéticas projetam a divindade acima de bem e mal, chamando para a vida as lembranças de um tempo onde viver era mais.
Nesta toada minha angústia emerge em meio ao desejo, projetando circunstâncias de nós dois à sombra das árvores imortais que a cupidez e o lucro não lograram vencer.
Resoluto, me manifesto em meio ao lugar onde a morte reflete a vida (dia após dia, uso sobre uso), enquanto a estação que o tempo preparou para o homem que deslembrou da vida segue negando o desejo no afago às espirais de ilusão.
Ao fim e ao cabo de dias iguais que terra firme impõe ao balanço do mar sobre ondas de conhecimento que a epifania da ignorância logrou questionar, o próprio tempo se apressa a dizer que ainda é muito cedo, desconhecendo que a marcha da vida é contra aquele que ama por amar.
Desilusão e suas intempéries não tardam, pois, atender o devaneio insensível de projetar o ter sobre a necessidade de ser, almiscarando na fantasia última dos dias de agonia a percepção de que ‘terra morta aviva’ a promessa de uma primavera dos povos, quando a ‘neve deslembrada’ projetará o fio condutor da existência na água que o gelo transcende.
Somos todos filhos dessa América que prometeu sonho e vem entregado mais valia à sombra de ‘ridículos tiranos’ fascistas.
Assim, desiludido de mim mesmo, encerro a má querença que o infortúnio de bem querer plantou (em mim), naquilo que o desamor me pegou pela manga, elastecendo no tecido que esgarçou as fantasias fugidias do reino dos iguais.
Num só espaço o deus tempo se rende ao encanto maior da vida, enquanto seus filhos finitos capitulam – tombados na colonização que a hipocrisia desvendou sob os olhos atentos da semana inglesa.
Segue sendo muito cedo e isso não tem impedido as folhas de marchar para a morte enquanto prisioneiras do insumo que as ressuscita, a cada ciclo que se inicia, enquanto os bardos todos se pronunciam, órfãos daquele que cresceu acima do rio Avon – ‘forever and a day’!
Existir se resolve, pois, em esgrimir a dor de todo desencontro que a vida adormece no solo das espirais de ilusão, enquanto amar desconforma nosso medo ancestral de partir – ‘too soon, too soon’...
Entrementes, seguimos sobrevivendo de efemérides isoladas que teimam não largar a mão de ninguém, pelo caminho de solidão que os dias de pouca alma tem concedido ao homem virtual que o século XXI pariu.
A estética da ilusão reclama uma mudança de padrões intrínsecos, suposto que sua descontinuação (metalinguística) sobreleva a ideia de existir, ao tempo em que encaminha a busca pela agonia de viver, desconhecendo na equação da partilha o molde de solidão do desencontro a dois – segue, assim, o dia, ‘salpicando de estrelas nosso chão’, na querença do céu noturno da América que o tempo perdeu.
O último índio, todavia, não teve força para lançar uma derradeira flecha. Faltou-lhe a esperança perdida em elementos exangues à própria ancestralidade, enquanto sua história marchou para o limbo, levando a tiracolo a conformação dos dias virtuais que a maçã lançou sobre a colheita da vida.
O pó segue desenhando a estrada. Sabê-lo, todavia, não desanuvia o caminho, naquilo que já não reconheço quem fui!
Sigo encenando o extrato de muitas contas perdidas na clepsidra do tempo, ao tempo em que desilusão, conformando o momento de nossa desesperança, marca passo com o sentimento que adormece o dia.
Marchamos para o fim. É do nosso destino alcançar o fim – finitos que somos. A diferença se percebe no que deixamos pelo caminho.
Saudade Pai!
João dos Santos Gomes Filho, Advogado


