PERSONAGENS DA CIDADE Anônimo, mas um grande poeta
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sábado, 31 de maio de 2003
Phoenix Finardi<br> Reportagem local 
Nos fundos de uma casa na Vila Nova, região central de Londrina, mora um escritor. Liberti Bonafini nunca publicou um livro mas escreve há exatos 40 anos. A letra bonita e desenhada cobre folhas e folhas de papel que ele guarda enrolados como se fossem pergaminhos presos com elástico. Liberti é poeta. As rimas se desdobram em orações, votos de feliz natal, descrevem a chegada de um neto, contam a história de uma briga na fazenda e falam de ecologia: ''somente quando a última árvore for derrubada, o último rio envenenado, o último peixe pescado, vocês descobrirão que dinheiro não serve para comer''.
Aos 85 anos, Liberti nunca teve um dia de aula na vida. ''Sou semi-analfabeto. O que eu aprendi foi por necessidade e curiosidade'', confessa. Quem lê os versos fica surpreso com a clareza de idéias e, principalmente, com a sabedoria que as palavras expressam. ''Rir é correr o risco de parecer tolo; chorar é correr o risco de parecer sentimental; estender a mão é correr o risco de se envolver; expor os sentimentos é correr o risco de mostrar o verdadeiro eu... somente a pessoa que corre risco é que sabe viver.''
Liberti chegou a Londrina pela primeira vez em 1942, vindo de São Paulo. Ficou pouco tempo: ''Era tudo muito barato mas muito sem jeito'', lembra, rindo. Voltou 3 anos depois com a mulher e dois filhos, atraído justamente pelo mato que assustava os outros pioneiros: ''Eu gostava de caçar e de pescar. Peguei muita paca, macuco e nhambu por aqui'', conta. O primeiro emprego, numa cerâmica em Jataizinho, foi trocado pelo comércio onde trabalhou durante 35 anos. Até os 44 anos de idade Liberti nunca tinha lido nem escrito nada além das poucas anotações que fazia no trabalho. A falta de estudo criou uma barreira para a leitura que ele ainda não venceu. Mas com a escrita foi diferente.
Um dia Liberti ficou doente. O diagnóstico tinha um nome assustador: ''enterite regional Crom''. Precisou fazer uma cirurgia, ficou 78 dias no hospital. Curioso, perguntou várias vezes ao médico que enfermidade era aquela. O ''doutor'' não tinha paciência para explicar e Liberti resolveu descobrir sozinho: ''Esperei uma hora que o médico estava operando e fui na sala dele onde tinha um dicionário só de medicina. Procurei até achar o nome da minha doença e descobri que enterite é inflamação no intestino, regional era de região e Crom era o nome do médico alemão que descobriu a doença'', explica. O longo período de internamento e os três anos e meio que Liberti teve que ficar afastado do trabalho serviram para revelar um dom: ''Eu tinha facilidade de fazer versos. As pessoas me contavam histórias e eu fazia trovas. Tomei gosto de escrever'', afirma. A saúde delicada ele já passou por 15 cirurgias proporcionou o tempo que ele precisava para escrever. ''Cada vez que eu ficava de cama ou internado era aquele punhado de versos'', recorda.
Com a humildade própria dos sábios, Liberti diz que não é escritor ''apenas faço uns versinhos...'' A única tristeza é a dificuldade com a gramática: ''Como não tive escola, eu me atrapalho muito com as letras. Ponho 's' no lugar de 'c' e fico com vergonha de mostrar porque sei que está cheio de erros. É só por isso que não escrevi um livro.'' Dono de uma memória prodigiosa lembra fatos, nomes e datas de mais de meio século, Liberti ainda pode surpreender: ''Tenho tanta coisa prá contar... quem sabe se minha neta não corrige os erros e eu ainda escrevo esse livro''.


