Perigosos descaminhos da política
Maria Lucia Victor BarbosaA política brasileira padece de antigos males que em breve completarão 500 anos, pois sendo herdados nos proporcionaram desde a gênese a ‘‘embriogenia defeituosa’’ da qual nasceu o Estado paternalista, clientelista, patrimonialista, e as mazelas do nacionalismo xenófobo e do populismo exacerbado.
Grande demais, presença constante, deus do qual para tudo se depende e ao qual tudo se pede, o Estado se tornou extremamente burocratizado, e a burocracia asfixiante favoreceu a corrupção que se entranhou em todo o tecido social. Assim, o poder no Brasil se tornou perdulário, e as ‘‘cortes’’ instaladas no poder central, nas capitais e nos municípios, nunca deixaram de proporcionar aos seus ocupantes as delícias do poder, as pródigas regalias, os privilégios incontáveis que sempre contrastaram as elites políticas com a maioria do povo.
Neste contexto de anticultura cívica, faltaram estadistas e sobraram populistas que pululam nos partidos, essas aglomerações de ideologia informe que geralmente apenas contêm ambições de poder pessoal. E desta maneira, tornou-se difícil no País criar e pôr em prática um projeto nacional capaz de ditar os rumos da Nação em direção ao necessário desenvolvimento econômico, político e social.
Faltou-nos poder, faltou-nos ordem ao longo do tempo. Ordem que não pode ser confundida com os arroubos despóticos de certos tipos caudilhescos, abundantes, aliás, em toda a América Latina.
Ainda com relação aos partidos, recordemos que eles nasceram da necessidade de arregimentar os senhores territoriais dispersos, cada qual baseado apenas na sua respectiva solidariedade clânica. E as facções surgidas lutaram para obter a eleição do juiz de paz, dos juízes municipais, dos vereadores e dos oficiais da Guarda Nacional. Esses cargos significavam em última instância poder para quem os manipulasse, da eleição à gestão, existindo o constante receio de que caíssem em mãos inimigas. Gera-se, assim, a vida partidária brasileira com a prevalência da defesa de interesses pessoais e a busca do poder pelo poder. Nas eleições, vinham à tona ódios pessoais e familiares e uma prodigiosa violência, própria da barbárie do sertão.
Hoje muita coisa mudou, mas a essência ainda persiste. No Congresso, os partidos incluem muito mais representações de poder individualizado e, em determinados momentos, sobretudo os de campanhas eleitorais em que prevalece o espírito de grupo, essas entidades que deveriam ser o elo entre povo e governo ostentam bem mais a tônica corporativista, voltada para interesses imediatos e não para os da Nação.
Isso se repete constantemente, e se estende em nível de Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores, com as exceções, que sempre merecem ser destacadas, dos políticos verdadeiramente vocacionados. Mas infelizmente no todo, prevalece a pouca visão pública, os gastos perdulários, os projetos absurdos.
Tal coisa é lamentável, visto que o Poder Legislativo possui no Brasil de hoje imensos poderes capazes de barrar as intenções do Executivo, além de ser um dos pilares da democracia. Entretanto, o que se assiste é a teimosa posição dos partidos no Congresso diante da votação das reformas necessárias para a decolagem do Brasil, entre outras, a fiscal e a política, prevalecendo apenas interesses corporativistas, ambições de poder pelo poder, barganhas por privilégios pessoais.
Vez por outra, partidos chamados de oposição simulam demagogicamente ideologias que jamais puseram em prática. O resultado vai do grotesco ao absurdo, e seria hilariante se as consequências não fossem trágicas para o País. Dizendo-se de esquerda, estes partidos e seus ‘‘caciques’’ só tentam refazer o caminho de volta ao passado. Por exemplo, há mofo no PDT de Brizola, o qual, com seus rompantes de caudilho lembra algum personagem do filme ‘‘O Parque dos Dinossauros’’.
Quanto aos partidos maiores, como o PMDB, o PT e o PFL tido como de direita, prefiro citar aqui algumas definições do meu amigo e ex-colega da UFMG, Bolívar Lamounier, expressas em entrevista nas Páginas Amarelas da revista ‘‘Veja’’ desta semana, e com as quais concordo inteiramente: ‘‘O PMDB, sem ofender ninguém, parece a Rússia. É grande, desorientado e armado até os dentes.’ ‘‘O PFL estava ganhando expressão nacional e até doutrinária. Mas hoje parece mais interessado em criar fatos políticos para a próxima eleição do que em ajudar a governar.’ ‘‘O PT é uma federação de grupelhos que finge ser um partido e que tem um candidato a presidente que é o Lula. E o Lula finge que tem nas mãos um partido.’
Sobre o PSDB, relembro eu mesma a marca da dubiedade, da indefinição que caracteriza essa agremiação política, e que se estende ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, tornando-o às vezes de uma lentidão inquietante diante da urgência da solução de graves problemas.
E assim, nossa cultura política, trazida nas caravelas de Cabral e aclimatada no indolente calor dos trópicos, propicia com frequência cíclica a ingovernabilidade onde são trilhados os perigosos descaminhos da política. Neste momento mesmo, o desgaste do presidente com os problemas oriundos de políticas equivocadas, da excessiva complacência com as turbulências sociais que se avolumam, da inexistência de partidos capazes de sustentar no Legislativo uma política coerente, da atitude de governadores que contribuem para acelerar a crise que se aprofunda no Brasil depois de quatro anos de calmaria do Plano Real, delineia um futuro nebuloso. Nele poderão se instalar com relativa facilidade demagogos nacionalisteiros de veia estatizante e tendências caudilhescas. Então, os brasileiros poderão compreender, finalmente, porque tantos cubanos fogem de sua Ilha em busca de liberdade e progresso.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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