O conflito em curso no Iraque é fonte inesgotável de notícias. Quando abrimos jornais, revistas, ligamos o rádio ou assistimos à televisão, há uma certeza: seremos munidos de informações sobre o desenrolar das operações no Oriente Médio. Contudo, o que mais me impressiona neste momento é o caráter muitas vezes tendencioso da mídia que tem como função principal noticiar. Infelizmente, até o momento, grande parte da imprensa tem se limitado somente a opinar.
Há claramente um senso comum em grande parte da mídia, e este responde pelo nome antiamericanismo. É uma pena, pois quando a tendenciosidade surge, o bom jornalismo desaparece. Não existe contraponto à inclinação das análises apresentadas e notícias veiculadas. Quem perde com isto é o publico, o país e mais do que qualquer destes, o bom jornalismo.
Toda esta dinâmica faz surgir discrepâncias. Subitamente, o tirano de Bagdá surge como vítima, defendido por pacifistas ao redor do mundo. Saddam está longe ser vítima. Este senhor, que responde pelo governo do Iraque, é responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas nas guerras que travou, especialmente contra o vizinho islâmico xiita Irã. Durante os conflitos, como estratégia de guerra, foram colocadas, sob ordem do ditador, crianças na linha de frente das batalhas para que estas detonassem as minas terrestres, pois assim suas tropas poderiam avançar com menos baixas.
Que espécie de homem é esse? Assim, também ordenou massacres com armas químicas, ainda em 1988 (contrariando disposições da ONU), contra seus próprios nacionais, os curdos iraquianos (http://www.kdp.pp.se/chemical.html), em uma ação coordenada pelo seu homem de confiança, Ali Hassan, conhecido como ''Ali Químico''. Estas são mostras de quem é Saddam Hussein e do que ele é capaz para atingir seus objetivos. Entretanto, simplesmente por estar contrário aos interesses dos Estados Unidos, é alçado ao posto de vítima. Ora, sabemos que se há vítima naquele país, com certeza não é Saddam.
Pergunto-me onde estavam os pacifistas quando crianças eram usadas como iscas para minas terrestres e cidades curdas estavam sendo exterminadas por armas químicas? Pergunto-me por que não foi noticiado, com a devida proporção, o massacre da cultura e do povo tibetano pelo governo comunista chinês? Pergunto-me por que não é divulgado, com a mesma intensidade, as atrocidades cometidas pelo governo russo na Chechênia? Por que os pacifistas não lutam pela abertura política, libertação e fim da tortura em Cuba e na Coréia do Norte? Onde estão os ativistas de Direitos Humanos quando pessoas morrem de fome na África sob o argumento de estarem sendo poupadas dos supostos ''perigos dos alimentos transgênicos''? Por fim, por que os contratos de exploração de petróleo e venda de armas entre França, Rússia, China e o governo de Saddam, que somam mais de US$ 41 bilhões, não foram amplamente divulgados?
MÁRCIO CHALEGRE COIMBRA é advogado na área de Direito Internacional e professor de Direito e Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília e Centro Universitário de Brasília

mockup