Embora seja uma doença antiga e possua tratamento relativamente simples, a tuberculose ainda é cercada de preconceitos e faz cerca de 90 mil vítimas todos os anos no Brasil.

O próximo dia 24 de março é o Dia Mundial de Combate à Tuberculose, enfermidade que ocupa o quarto lugar entre as mortes por doenças infecciosas, num total de cerca de seis mil vítimas fatais por ano no Brasil. A doença é uma das dez causas mais frequentes de internação.

O professor de pneumologia da Universidade Federal do Paraná, Rodney Frare e Silva, conversou com a FOLHA sobre os motivos de tantos casos da doença no país, o desconforto social dos infectados e as melhores formas de combate.

A tuberculose é vista como doença de países pobres. Por que os casos são mais comuns nesses locais?
A tuberculose é uma doença multicausal. Isso significa que ela não se resume apenas em hospedeiro, que é o cidadão comum, e bacilo. Entre os dois existe a falta de comida, de água, de esgoto, baixa escolaridade e dificuldade de acesso das pessoas ao sistema de saúde. Tudo isso complica a realidade e causa a doença. Prova são os números: o Brasil tem quase 100 mil casos de tuberculose por ano, a Índia tem 800 mil casos, a Holanda e a Dinamarca praticamente não têm mais casos.

A situação do Brasil é muito ruim?
Não é ruim, mas não é a ideal. Não estamos como a Índia e países da África, mas estamos muito longe dos países desenvolvidos. O Brasil tem um programa nacional contra a tubercoluse similiar ao de nações ricas e trabalha em três frentes: vacinação; teste de detecção e profilaxia das pessoas possivelmente infectadas pelo contato com o doente; e tratamento dos que desenvolvem a doença. Mas existem falhas.

Com relação à vacina, todos a recebem no Brasil. Por quê ainda acontecem novos casos?
A população é praticamente toda vacinada. As pessoas ainda adoecem porque a vacina não dá proteção total. A quantidade de bacilos e o sistema imunológico de cada um é fator importante. Pessoas que tomam corticóides, fazem quimioterapia, adquirem o vírus HIV ou passam por outras situações que baixam a imunidade estão mais propensas a contrair e desenvolver a tuberculose. Mas a vacina consegue proteger muito mais de 90% das pessoas que a tomam.

Sabe-se também que a falta de conclusão do tratamento é um problema...
Sim, embora já tenhamos melhorado nesse setor. O tratamento é praticamente todo feito em casa e de maneira gratuita, com medicamentos orais fornecidos pelo sistema de saúde. O problema é que ele deve ser feito por seis meses e muitos desistem antes da conclusão. Depois de 60 dias o paciente para de tossir, para de suar e escarrar e acha que está curado. Mas o bacilo fica no organismo e causa recaídas muito mais graves. Também temos de lembrar que as pessoas precisam se preocupar com os indivíduos suspeitos de tuberculose. Alguém com 20 a 40 anos, com tosse, expectoração, febre no fim de tarde, sudorese noturna e escarro constante deve procurar um médico com urgência. As mortes acontecem porque as pessoas não procuram tratamento, acham que é gripe ou outra coisa simples. O diagnóstico precoce é muito importante.

O preconceito em relação à doença também pode ser um fator que atrapalha a continuidade do tratamento e a aceitação do doente...
O preconceito atrapalha muito. Existe um tabu muito forte porque como é uma doença transmissível pela tosse, pelo espirro e até pela fala, as pessoas se afastam do doente. Por isso o paciente precisa ser liberado do trabalho e os familiares e amigos devem ser testados para verificar se não foram contaminados. Outra questão é que a tuberculose está associada à pobreza. Por esses dois motivos, as pessoas ficam com vergonha de dizer que estão doentes.

É verdade que a tuberculose pode atingir outros órgãos do corpo?
Certamente. Pode acontecer tuberculose ocular, de laringe, de pleura, de gânglios, de rim, de ossos. Existe tuberculose em praticamente todos os órgãos, mas ela só é contagiosa nos pulmões, embora possa causar a morte em qualquer caso. Cabe aos especialistas estarem atentos para o diagnóstico.

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