Ao nascer, a periferia era sinônimo de solidariedade entre seus moradores. Afinal todos já tinham sentido na pele os preconceitos de uma sociedade elitista, a precariedade dos serviços básicos como sa© úde, educação, saneamento e a miséria, velha companheira, todos a conhecem bem. Por essas consequências que os tornaram maioria, todos se igualavam.
Antes a periferia era uma grande família. Havia respeito, acordos, tolerância. Hoje o que acontece é definitivamente o oposto. Manos se estranham, se tornam diferentes. Atualmente, a violência é uma constante, tornou-se rotina em qualquer lugar. A periferia é o local em maior evidência, vai ver por serem menos favorecidos os seus moradores.
Quando tomo conhecimento da morte de mais um jovem, penso como o nosso futuro está comprometido, num pensamento bem otimista. Será que nossos governantes já pensaram nisso? Cada jovem morto, não importa se da zona norte, sul, leste ou oeste, representa um voto a menos. Continuando neste ritmo, logo teremos mais candidatos que eleitores.
O que mais nos amedronta e piora a situação é procurarmos um culpado. Toda esta onda de violência é um reflexo da situação econômica política do nosso País. Nossos jovens não têm emprego – tiveram uma infância comprometida – e a maioria está longe das salas de aula há algum tempo. Mas para algumas pessoas públicas que usam a tevê, um veículo forte de comunicação e expansão de suas idéias e opiniões, o maior incentivador desta balbúrdia é o Rap. Isso não é verdade. De fato, para um leigo no assunto as letras devem ser aterrorizantes, porém ao serem ouvidas e analisadas a conclusão é outra. Elas contam a violência sim, relatam, não instigam, contam, não inspiram, na linguagem da periferia. O pior é vermos pessoas públicas assim, defendendo a tese que temos muitos ladrões e que ao menos dois poderiam ser mortos por dia. Que contradição.
Para opiniões assim, um lembrete. Para cada ladrão morto teremos ao menos duas vítimas a mais. Um vinga o outro. Lamentavelmente, pessoas inocentes algumas vezes são feridas durante esses acertos.
Por isso o movimento Hip Hop não defende o extermínio, mas sim a regeneração. Nossos impostos têm que ser usados na construção de mais escolas e não de presídios. E foi seguindo este raciocínio que nasceu o ‘‘Expressão Hip Hop’’. Em quatro edições reuniu, em média, em cada uma, três mil jovens provenientes de todos os cantos e recantos da nossa cidade, sem que houvesse nenhuma ocorrência policial.
Que a violência existe, não temos mais como negar ou não enxergar. Ela está aí, se faz presente em todos os lugares. Este é um problema que tem que ser solucionado pela própria sociedade e não será vendo na tevê corpos sendo revirados e mostrados como ilustração mórbida que vamos resolver. Também não será ampliando presídios por já estarem lotados que diminuíremos a violência aqui fora.
Temos como sociedade, pensarmos não só na violência geral, mas também nas específicas, como contra a mulher, aos jovens de modo geral, o fim do abuso policial e a violência do racismo. O que queremos mesmo é ser respeitados como cidadãos que somos, enquanto isso não acontece, infelizmente a nossa periferia segue sangrando.
JOSMAR MACHADO é coordenador geral do UH2L e apresentador do programa Estação Hip Hop pela Rádio Universidade FM.

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