Perguntar não ofende
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segunda-feira, 22 de outubro de 2001
Remy Lessnau 
Deve ser influência da chegada do novo milênio, talvez uma espécie de El Niño político com suas subversões ideológicas inesperadas. Enfim, depois de 30 e tantos anos de militância universitária e mais outros tantos de lutas políticas, nem sempre vitoriosos, mas sempre honestas e bem definidas, somos surpreendidos com este extraordinário quadro eleitoral, nos meses que antecedem a eleição na UFPR.
O que mais me incomoda é o termo ''oposição'' do qual se apossou uma das chapas sem, contudo, explicitar a quem ou a que. Confesso que o ''nome'' da chapa é mais curioso que a própria aliança que a gerou.
Até uns meses atrás, a posição política do candidato a reitor e de seu vice me pareciam contrastantes, hoje em dia nem tanto, pois suas posições se confundem e a aliança, antes esquisita, começa a fazer sentido. Já pensaram numa composição entre Maluf para presidente e Lula candidato a vice? Daria para acreditar? Só se fosse num pesadelo. No caso de tal ''oposição'' isso faz sentido, mas há claramente um cheiro de oportunismo no ar.
Mas o que eu quero mesmo é perguntar: a que ou a quem se opõe a tal oposição? A atual administração? Pois se assim é, por quê? O atual reitor governa até meados de abril, quando deve assumir um novo, uma vez que não manifestou desejo de se candidatar novamente.
Por outro lado, o regimento da UFPR estabelece que acima do reitor estão os Conselhos Superiores: de Planejamento e Administração, de Ensino, Pesquisa e Extensão e Universitário. A maior parte das decisões deve passar por estes conselhos, cujos membros são os diretores de setor e representantes dos diversos segmentos da comunidade universitária (professores, técnico-administrativos e estudantes).
Embora eleitos em momentos diferentes, cada diretor, assim como cada representante faz parte da administração e também responde pela política administrativa. Cabe ao reitor e seus colaboradores executarem o que os conselhos estabelecem em colegiado. Ora, os membros da chapa de ''oposição'', como diretores dos setores de Ciências da Saúde e de Ciências Sociais Aplicadas, fazem parte destes conselhos e, portanto, participam diretamente das decisões.
Quem é oposição deve ser contra alguma coisa, que deseja mudar. Mas se os membros da tal chapa fazem parte das decisões e, em última análise, da própria administração superior da universidade, então seria uma oposição contra eles mesmos? Muito estranho...
Na impossibilidade de se opor claramente a algo ou a alguém no âmbito universitário, pois se falta a situação vontade de continuar, a ''oposição'' se opõe a quê? Ao governo FHC? A ACM? A Jader e seus ranários? A Paulo Renato e sua deseducação? A globalização? Ao neoliberalismo? Ora, nos dias de hoje vai ser difícil achar quem não seja contra; mas afinal o que isto tem a ver com eleição para reitor?
Ah! Oposição, que palavra mágica! Mas só ela não basta para convencer o colégio eleitoral da UFPR. A chapa de ''oposição'' poderia esclarecer em debate, com os demais candidatos, a que se opõe e aí, quem sabe, seus verdadeiros propósitos e propostas para a UFPR sejam explicitados.
- REMY LESSNAU é professor adjunto da UFPR


