As pedras da sucessão presidencial começaram a ser movimentadas com o primeiro grande lance: a admissão por parte de Tasso Jereissati (PSDB) de que pode ser candidato a presidente, logo ele que mantém uma relação umbilical com o mais lançado dos candidatos, Ciro Gomes (PPS). No tabuleiro de xadrez, os principais jogadores têm, nesse momento, idênticas oportunidades. Todos dependem da evolução do quadro político que, por sua vez, está sujeito às circunstâncias sociais e econômicas. Por isso, pode ser mais útil, dentro de uma análise de viabilidades, mapear seus pontos positivos e negativos.
Mário Covas (PSDB) tem credibilidade, conta com apreciável força partidária, exibe inegáveis qualidades no campo da honestidade pessoal, além de ser considerado um ícone de coragem e determinação. Mas sofre restrição pelo perfil destemperado, que sugere, às vezes, um descontrole emocional. A doença, ‘‘aquela coisa’’, foi vencida, mas não se deve esquecer que sobre o eleitor ainda paira a síndrome de Tancredo. A impopularidade de seu governo e a idade também são obstáculos à corrida.
Lula (PT), inegavelmente, tem carisma, e desfralda a bandeira da maior referência oposicionista do País. É quem mais se identifica com o povo. Mas seu perfil parece esgotado, discurso já saturado. Além disso, peca pela ausência de um discurso construtivo. Fica sempre no diagnóstico. Parece um profissional da política, com uma experiência parlamentar e administrativa menor que sua estatura. Ciro Gomes se identifica com o oposicionismo ao presidente FHC, é preparado, competente, experiente e passa a idéia de um político que simboliza renovação. Mas é verborrágico, também destemperado, com certa extravagância no trato de assuntos sérios. Com seu périplo nacional, diminuiu bastante a rejeição gerada pelo fator regional.
José Serra (PSDB) tem boa imagem como administrador, é preparado, culto, corajoso e leva, ainda, a fama de ser um grande articulador. Mas sofre grandes resistências regionais, principalmente por parte do Nordeste, que não perdoa o discurso restritivo que ele faz à região. Trata-se de um quadro com alta visão técnica, sem carisma e de forte antipatia pessoal. Tem um ministério com muito dinheiro e pode ser o aríete de FHC para romper o balão das deficiências sociais. Tasso Jereissati é bom administrador, empresário moderno, experiente, que também passa idéia de mudança. Mas é considerado um candidato muito regional. Falta-lhe um discurso nacional. Também está próximo à síndrome de Tancredo, com seu coração complicado. Itamar se identifica com o nacionalismo, encarna um virulento oposicionismo a FHC e é um grande defensor das causas sociais. Mas espanta eleitores, principalmente dos bolsões médios, por conta do perfil intempestivo, folclórico, imprevisível e rancoroso. Diz-se dele que guarda a raiva na geladeira, para não estragá-la.
ACM (PFL) é um ícone da coragem e autoridade, exibindo a idéia de poder, força, liderança, autoridade. Mas é polêmico, quase destemperado, e a idade certamente será um obstáculo. Está dentro da síndrome de Tancredo. Integra, ainda, o bloco dos perfis conservadores. Roseana Sarney é uma esperança de renovação, faz boa administração, tem um grande sobrenome. Mas esse mesmo sobrenome funciona como ligação ao passado e, infelizmente, o fato de ser mulher pesará dentro de uma moldura política que privilegia os homens. Também é considerada uma candidata muito regional. Michel Temer (PMDB) é sério, ponderado, equilibrado, considerado honesto e tem forte prestígio junto aos formadores de opinião e classe política. Mas fazem falta a pouca comunicação com as massas e uma experiência administrativa na área federal. José Sarney (PMDB) reúne as qualidades do equilíbrio, moderação, experiência, capacidade, poder e influência. A idade, o sentimento de que sua vez já passou e a ligação com o passado constituem fatores negativos.
Pedro Simon (PMDB), corajoso, é considerado honesto, mas é muito regional e também tem perfil destemperado. Faltam-lhe apoios. Paulo Renato (PSDB) é sério, bom ministro, exibe preparo intelectual e passa a idéia de assepsia política. Mas é muito técnico, isolado dos partidos e pouco conhecido. Pedro Malan, sem partido, é o zelador da estabilidade econômica, sério, moderado, mas é um tecnocrata, a quem se acusa de ser o responsável pela crise social. Brizola é contundente, bom comunicador, tem carisma, mas é radical, isolado politicamente, representa um retrocesso e a idade não ajuda.
Uma equação para ser considerada: Nordeste e Sudeste, juntos, representam 71% dos votos. Sudeste, sozinho, 44%; Nordeste, sozinho, 27%; Sudeste e Sul, 59% dos votos. Dessa moldura, sairão os retratos.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular em São Paulo, consultor político
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