O perfil da Aids mudou também no que se refere à sua conceituação: de doença fatal passou à categoria de doença crônica. Ainda não tem cura, mas já é tratável. Como explica a assistente social Argéria Maria Narciso, que atua no Ambulatório do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e trabalha com pacientes de Aids desde 1988, ''no início da epidemia, sem medicamentos adequados, só se podia acompanhar o doente, em seu combate contra as infecções oportunistas, até a morte''.
Esse foi um período que ficou gravado na mente das pessoas pela figura carismática do compositor e cantor Cazuza, ''definhando a olhos vistos''. A partir de 1991, com o AZT (coquetel de medicamentos), tornou-se possível prolongar um pouco mais a vida dos doentes e diminuir seu sofrimento. Desde 1996, com a chegada ao mercado do coquetel anti-retroviral, a situação de fato mudou.
Esperava-se, no entanto, que a terapia anti-retroviral colaborasse para a diminuição significativa do número de óbitos por Aids, mas não foi o que ocorreu, pelo menos não no ritmo esperado. Em 2001, segundo a Cooordenação de DST/Aids do município, a Aids representou a quinta causa de mortalidade prematura em Londrina, com 1.154,5 anos potenciais de vida perdidos. Isso se explica, segundo Argéria, especialmente ''pela dificuldade de adesão ao tratamento por parte dos pacientes''.
A terapia anti-retroviral, que é para o resto da vida, obriga o doente a seguir horários rígidos, impõe severas restrições a seus hábitos rotineiros e traz ainda uma série de efeitos colaterais. ''Basta melhorar um pouco e o doente interrompe o tratamento ou deixa de segui-lo corretamente'', conta Argéria. Ao lado disso, a questão da pobreza ganha destaque, já que a população carente vem sendo cada vez mais atingida pela Aids. ''Os pacientes têm acesso gratuito a medicamentos de alto custo, por meio do SUS (Sistema Único de Saúde) e, muitas vezes, não têm acesso à comida em casa'', revela a assistente social.
Se o perfil da Aids mudou, o mesmo não aconteceu com o o preconceito. ''Estamos iniciando a terceira década de convivência com o problema'', comenta Roni, da Alia. ''E ainda, especialmente nas cidades do interior, é como se fosse o começo da epidemia, impregnada de preconceito e estigma em relação ao portador de HIV'', acrescenta. Mais velado do que explícito, o preconceito não se circunscreve apenas ao doente de Aids. Estende-se aos seus familiares, prejudicando especialmente os filhos, que enfrentam inúmeras barreiras em seus relacionamentos sociais, por associação a um pai ou mãe com HIV.
A marginalização social imposta ao doente de Aids, nos vários níveis, torna imprescindível a ajuda psicológica e, muitas vezes, também o apoio material. Mas não só para a Aids, como defende Roni, ''a psicanálise deveria ser uma questão primária, básica, de atendimento da saúde pública, isso aliviaria a demanda por hospitais''.

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