Perder o poder - Hélio Doyle
Perder o poder
Hélio Doyle
O presidente Hugo Chávez ganhou três eleições na Venezuela, em menos de um ano. Foram três vitórias incontestáveis. Chávez fez sua campanha para presidente da República em torno de uma idéia central: a eleição de uma assembléia constituinte com poderes soberanos para reorganizar o Estado. Cumpriu o prometido, a assembléia foi eleita pelo voto livre e direto e está funcionando exerce plena e soberanamente seus poderes, como deve ser.
Do outro lado do mundo, também foram realizadas eleições livres e diretas. Não foi para eleger candidatos, mas para a população do Timor-Leste decidir se quer viver em uma província da Indonésia ou em uma nação independente, o Timor do Sol Nascente. Pelo alto comparecimento às urnas e pelo clima no país, tudo indica que a independência vencerá.
As coisas poderiam ser simples: o que a população decidiu pelo voto, está decidido. Chávez recebeu um mandato popular, então tem todo o direito de exercê-lo, desde que não viole os marcos legais (o que, até agora, não fez).
A se confirmar o respaldo popular à independência no Timor-Leste, nada mais deveria restar à Indonésia do que se retirar do território que invadiu em 1975 e anexou em 1976. Os aliados internos dos indonésios, os milicianos timorenses que lutam contra a independência, poderiam optar entre aceitar pacificamente o resultado e integrar-se à vida normal no novo país, ou viver na Indonésia que tanto parecem amar.
Mas as coisas não são tão simples. Ninguém entrega o poder pacificamente quando perdê-lo significa uma ruptura, uma mudança radical. Costuma-se dizer que nas democracias a alternância de poder é pacífica e ocorre sem traumas. Mas isso é apenas uma mentira para enganar incautos.
Uma coisa é perder um governo, outra é perder o poder real. Os governos, geralmente, são meros instrumentos dos que realmente têm poder. O que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo, quando os republicanos derrotam os democratas, ou vice-versa, não é uma mudança no poder real o exercido sem interrupções pelo complexo industrial-financeiro-militar. É apenas uma mudança de nomes no governo, algo transitório, pois o poder real permanece intocado.
Nunca é demais lembrar que as democracias sobrevivem enquanto o poder real não é ameaçado. Foi assim, para não ir longe, no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Equador...
É por isso que Hugo Chávez e os constituintes encontram resistência dos que temem estar perdendo o poder real na Venezuela. E daqueles que, em outros países, temem que o processo de ruptura possa dar certo e se repetir domesticamente.
É por isso, também, que ainda não se pode dizer que a questão do Timor-Leste está resolvida. As violentíssimas milícias pró-Indonésia estão resistindo ao resultado das urnas e nada garante que apesar das contradições internas em que vive e das pressões internacionais que recebe a Indonésia promova a transferência de poder ao primeiro governo timorense.
É duro perder o poder. Imagine-se perder um país.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília





