Perder a vida e o patrimônio: riscos na fronteira México-EUA
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sábado, 23 de agosto de 2003
Reportagem Local 
Depois de alguns anos trabalhando ilegalmente em algumas ocasiões sob frio de 15 graus centígrados Figueiredo, hoje um homem dedicado a organização de eventos da sua igreja, conseguiu regularizar sua situação se valendo de seu impecável currículo como fornecedor de mão-de-obra para a construção civil.
Era um fim da provação, iniciada da pior maneira possível, sob o risco ou tombar morto (a travessia exige esforços de atleta e os coyotes mexicanos são considerados sujeitos perigosos, às vezes latrocidas), ou de ser capturado, deportado e perder o dinheiro da hipoteca da propriedade de seu pai, um diabético de 67 anos com diversas complicações. ''Arrisquei todo o patrimônio da minha família''.
A tensão de quem colocava em jogo o próprio futuro e o futuro dos seus familiares tomou conta de Figueiredo durante 13 dias, quando enfim se instalou em um apartamento pequeno em Newark. ''Fiz todo o percurso sem poder me comunicar claramente. Entendia pouco espanhol e nada de inglês. Quando cheguei, senti o maior alívio da minha vida''.
Tudo começou no vôo que o levou à capital mexicana. De lá, o brasileiro viajou durante um dia todo até Guadalajara. Na segunda maior cidade mexicana, ele fez outra viagem aérea de duas horas até Mexicali. Nesta cidade, foi ''adotado'' pelos coyotes.
Viajou então três horas de van até Tijuana, que faz fronteira com San Diego, na Califórnia. ''Fiquei oito dias em um alojamento improvisado aguardando o melhor momento para atravessar. Orava muito para ter forças de encarar a travessia''.
E lá foi Figueiredo passar pelo momento mais crítico de sua odisséia. O horário escolhido foi às 2h30 da madrugada, quando a fiscalização enfrenta algumas limitações de controle por causa da falta de iluminação. O brasileiro recorda que preferiu a rota periferia-periferia (das duas cidades) em relação a uma rota rural, onde a falta de umidade do deserto é um obstáculo adicional na tentativa.
Ainda assim, o Figueiredo teve que transpirar muito para atingir o objetivo que mudaria sua vida. ''O mais incrível é que a gente tem que acompanhar os coyotes em uma corrida muito acelerada, que dura cerca de três horas''. Mas, o que mais orgulha o sitiante de Ortigueira é ter saltado uma tela de dez metros de altura, sem poder usar a impulsão dos pés (eles não cabem nas frestas). ''Foi tudo no braço. É só com muita vontade e força que você consegue fazer isso rápido''.
Depois da tela e de chegar na periferia de San Diego e pernoitar em um quarto com mexicanos, ele recomeçou a viagem. Pegou um ônibus até Phoenix (Arizona), onde quase não consegue embarcar até seu destino final. ''O aeroporto era enorme e eu tinha que me localizar perguntando com gestos''. Até Nova York, do outro lado do país, foram mais sete horas de vôo.
(L.F.M.)


