A exclamação do jogador Ronaldinho anteontem na CPI da Nike, aquela que os peritos em previsões dizem que vai dar em pizza, não vale só para o resultado do grande jogo da Copa de 1998, a final Brasil x França. As palavras dele – ‘‘perdemos, paciência!’’- nada extraordinárias, diga-se de passagem – resumem muitas outras cenas da política nacional.
Isso vale para a disputa pela presidência da Câmara e do Senado, para o Orçamento da União e para o desfile de perguntas vazias feitas anteontem no plenário da Comissão Parlamentar de Inquérito da Nike.
Quem viu do começo ao fim o depoimento de Ronaldinho quase perdeu a paciência com as pérolas que saíram dali. Resumindo, uma das perguntas feitas ao jogador foi mais ou menos assim: ‘‘No esquema tático da Seleção para aquele jogo, você tinha como missão marcar o Zidane?’’.
Mesmo quem não entende nada de futebol sabe que Ronaldinho é atacante, o sujeito que faz os gols. E, como tal, seria impossível assumir uma tarefa típica de quem está na defesa. Só se Ronaldinho fosse The Flash para sair do ataque do Brasil e marcar o craque francês, responsável por dois dos três gols da França no final da Copa 98.
Vamos transpor a cena da marcação para a política: seria como Antonio Carlos Magalhães despachar na sala do PMDB de Jader Barbalho. ACM e Jader, aliás, formam outro tema que requer paciência. A disputa pelo poder na Câmara e no Senado vai desembocar na derrota de algum partido da base governista, mas ninguém vai deixar de apoiar o governo no dia seguinte à eleição.
Quem perder – e, se continuar tudo como está, pode ser o PFL – vai gritar ‘‘perdemos, paciência!’’ e preparar a próxima jogada para driblar o partido vencedor.
Vencedores, aliás, são todos os deputados que conseguiram liberar suas emendas de fim de século no novo milênio. A mágica foi possível porque o governo incluiu na conta financeira deste ano, a título de restos a pagar de 2000, muitas obras propostas pelos políticos.
O festival foi tanto que houve convênio assinado no dia 31 de dezembro, no último domingão do século! Basta dar uma olhadinha no ‘‘Diário Oficial da União’’ do dia 9 de janeiro.
Só há um probleminha: como o caixa é o mesmo de 2001, não sobrará muito para gastar com os projetos previstos para este ano. A quantidade de restos a pagar indica ainda que os R$ 18 bilhões de investimentos contidos no projeto aprovado pelo Congresso não passam de ficção.
Mais que isso: vai faltar dinheiro para cobrir as melhorias sociais previstas na proposta deste ano. O que fazer? Nada. Não é ilegal deixar restos a pagar para o ano seguinte. Quem chegar ao fim do ano sem receber o que pretendia só tem como saída dar uma de Ronaldinho: ‘‘Perdemos, paciência!’’
- DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília

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