Quem não as teve? É como se arrancar unha, dedo ou membro, sem anestésico. Terrível a sensação. Muitas vezes geram abatimento, uma busca que atravessa noites e madrugadas, tentando entender o porquê de tudo terminar, ‘‘como é possível?’’, após identificações e idealizações; buscam-se culpados, auto-rejeições aparecem, é um horror esta fase de elaboração das perdas... Como dói e faz sangrar a ausência de quem já compartilhamos sentimentos tão intensos.
Este tema é objeto de trabalhos de mestrandos e doutorandos, e busca pistas para a ajuda dos que eu ousaria chamar de ‘‘inadimplentes do afeto’’. Não é necessário ir muito longe para conhecer-lhes os efeitos quando um cachorrinho (‘‘Bianca’’) que estimamos morre; um pássaro (‘‘Blue’’) deixa de alegrar o ambiente; um peixinho (‘‘Puby’’) é encontrado sem cor no fundo do aquário; tudo se torna triste, tudo parece perder razões, significados.
Mas a pior e mais dolorosa das perdas: dos amores verdadeiros rompidos, dos relacionamentos que vemos escapar por entre as mãos, e que surgem como flashs de vida nos cantos da casa vazia; numa mesa de refeições que se tornou grande demais para um só; na busca do aconchego da cama que fica ‘‘estranhamente dura ou desconfortável’’ provocando até dores musculares; ou no acordar à noite, buscando o corpo ou o rosto da pessoa amada, encontrando apenas nos lençóis ou travesseiros, um pouco do seu cheiro e presença.
Aqui um comentário meu, avalizado pela experiência pessoal, leituras e estudos: muitas vezes, pessoas que aparecem em consultórios psicológicos com a tal ‘‘Síndrome do Pânico’’, deveriam ter seus quadros reavaliados, pois na grande maioria são pessoas que sofrem da – absoluta, impartilhável e imensurável – ‘‘Síndrome das Perdas’’.
E mesmo naquelas em que os sintomas concluam como pânico mesmo, análise mais profunda nos conduzirá a esta descoberta à qual cheguei no meu dia-a-dia - efeito de laços rompidos. Existe também, em todos que passam pela situação, o receio de comentar a respeito desta ‘‘fragilidade’’ o que é uma grande besteira, e da qual me redimo agora, o que pode, de certa forma, atenuar esta ansiedade infundada em muitos, e a preocupação sobre ‘‘o que vão pensar’’.
Estive às voltas, numa sequência meteórica, com muitas perdas: casamentos desfeitos, falecimento de parentes, da avó (Marica), e de um namoro que parecia ir muito bem, quando, a parceira não entendendo a situação, terminou, coincidindo com a minha perda maior até hoje, a de meu pai – e na mesma época.
Quando Mário Prata declarou ter a tal síndrome foi um auê. Depois o Gugu Keller, a Simoni, e por aí vai – hoje se estimando que até 4% da população mundial vivencia esta luta. É como uma gripe forte que atingiu a fonte das emoções, resistente aos ‘‘antibióticos usuais’’. Claro que, para os que não sabem da situação, poderão nos achar ‘‘esquisitos’’.
Os psicoterapeutas devem ter muito cuidado e sensibilidade nesta questão, pois tenho certeza que conteúdos não resolvidos na tenra infância, ou rupturas constantes desencadeiam estas sensações, pela ausência de laços afetivos importantes.
Quando fazem piadas (iniciantes em Psicologia) sobre Freud ou Lacan – falta-lhes fundamento – pois estes dois personagens da história da Psykhé trouxeram à luz conteúdos poderosos, como o da livre associação de idéias e palavras, e pela análise e insights consequentes, se percebem e são minimizados os efeitos destas situações.
Claro que a postura dos adeptos do comportamentalismo tem obtido resultados altamente positivos, idem a posição filosófica a respeito. Assim como nas marés, que variam subindo e descendo, revelando o que está no fundo ou ocultando-o em outro momento, a tendência é de que a pessoa, conhecendo este movimento normal, acalme a tensão envolvida, com ou sem medicamentos.
Agora, uma questão ímpar e muitas vezes não lembrada: a da espiritualidade. Nossa alma e corpo são dádivas divinas e como tais, anseiam pela complementação espiritual, presença e manifestação de Deus, e esta parte não pode ser desprezada, sobre risco de se perder todo o tratamento.
Mas as perdas estão aí, à nossa frente, e as motivações para superá-las transitam idem, e aos poucos galgaremos a cura ansiada. A Síndrome do Pânico não é capaz de tirar do ser humano, a excelência do criar, a capacidade física e mental, e mais importante, não retira a condição de amar e ser amado.
- EDGARD BUENO é escritor em Londrina

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