Confesso que cheguei a ter, na juventude, uma grande aversão por Rui Barbosa. O político e intelectual baiano parecia-me encarnar, de certa forma, a ‘‘história oficial’’ do Brasil: além de ser de fora do ‘‘eixo’’ Rio-São Paulo, era baixinho, pernóstico - um herói internacional de batalhas desconhecidas em territórios ignorados. Afinal, onde é que ficava Haia, mesmo? Poucos turistas brasileiros, que visitam a Holanda, sabem que se trata da cidade de Den Haag... E, além disso, nunca havia sido eleito pelo povo, nas eleições em que disputou a presidência.
Muitos anos mais tarde, lendo Barbara Tuchman, a hábil narradora americana de tudo que faz a petite histoire, convencia-me de que tinha razão: no seu extenso capítulo sobre a Conferência de Paz, realizada em Haia, depois da 1ª Grande Guerra, a única menção ao político patrício, que chamava de Barbarossa, era para classificá-lo como ‘‘o mais chato’’ entre os delegados.
Uma coisa com que eu implicava especialmente era uma citação, tradicionalmente afixada pelo Brasil afora nas lojas de pequenos comerciantes intelectualizados e escritórios técnicos de contabilidade:‘‘De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir da honra, a ter vergonha de ser honesto...’
Lendo aquilo, achava que Rui escrevera porque tinha baixo astral e era complexado. Nesse meio tempo, a citação até saiu de moda. Como o próprio Rui.
Pois um dia desses, e a propósito de tudo que se passa em nosso País nesses tempos - meios e inteiros - vi-me relembrando vagamente da citação, achando que talvez RB pudesse ter alguma razão. Telefonei para o museu Casa de Rui Barbosa para descobrir de onde vinha, exatamente. E aí fui informado de que o parágrafo, extraído de um discurso parlamentar, costuma ser transcrito sem a última frase, altamente sugestiva: ‘‘Essa foi a obra da República nos últimos anos.’
Rui falava do inicio da República Velha, com a nostalgia de quem conhecera pessoalmente o Império e seu Imperador, ‘‘sentinela vigilante da moralidade’’ e, no contexto, tratava especificamente de um escândalo envolvendo oficiais militares e o próprio ex-presidente Hermes da Fonseca, seu desafeto político, do qual os comprovados culpados estavam saindo impunes. Fato que, ainda de acordo com o texto de Rui, era uma ‘‘grande vergonha diante do estrangeiro, aquilo que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais.’
Diante da clareza e do contexto da subestimada citação, senti-me como o heróico, quase anônimo, personagem de Drummond: ‘‘E agora, José?’
Relendo a frase, agora, percebo-a irretocável. Estarei ficando velho? Bem, talvez não tão irretocável assim. Acho que - como tantos Josés (e Joões, Marias ou Cristinas) bem-intencionados por este Brasil afora - de fato ainda não desanimei da virtude, nem me rio da honra. Quanto à vergonha, bem, ultimamente tenho tido alguma vergonha de viver num país onde tanto triunfam a injustiça como a desonra. Mas são ‘‘eles’’ que se riem de tudo isso: os maus e as nulidades. Na verdade, riem-se de nós.

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