Se já soubesse ler, minha filha Júlia, que acabou de nascer, receberia de um pai feliz, mas preocupado, uma breve carta:
''Filha querida, quando a enfermeira finalmente anunciou a sua chegada, experimentamos a alegria em sua mais pura forma. Esboçando o choro da vida, você ingressou no mundo externo, deixando para trás a tranquilidade uterina. Mas eu preciso te avisar, filhinha: o mundo está em guerra.
Em várias partes do planeta, crianças estão sofrendo em conflitos provocados pelos adultos insensatos. Num deles, um presidente superpoderoso resolveu invadir um outro país, também sob domínio de um tirano, por causa de poder e petróleo. Quando você tiver condições de compreender a conjuntura deste momento, os personagens da guerra já estarão nos livros de história. Mas é bom você saber: covardes, eles nem sequer acompanham suas tropas no campo de batalha; comandam-na da poltrona confortável dos seus ricos gabinetes.
É incrível, filha. Ao invés de gastarem dinheiro com comida para os pobres, esses governantes consomem fortunas em tanques, mísseis e aviões. Para fazer a guerra e gerar mais fome e miséria. Vai se acostumando com esse bicho-homem, filha: ele é mesmo bicho e não merece confiança.
Nosso país não mandou seus homens para a guerra. Mas as nossas famílias vivem em constante terror nas próprias cidades. É a violência urbana, filha. Miséria, falta de educação, falta de emprego e saúde precária geram revolta e levam pessoas honestas, inclusive crianças, para a criminalidade, inserindo-se num grupo antes exclusivo dos marginais e inescrupulosos. Um simples passeio no parque passou a ser programa de alto risco.
Tem uma outra guerra, filha. É contra as epidemias e os vírus desconhecidos que se proliferam em escala geométrica. Um mosquitinho, que transmite uma doença chamada dengue, tornou-se o inimigo número um da saúde pública. Tudo por culpa, mais uma vez, dos adultos insensatos, que agridem as leis da natureza, o meio ambiente e, maldosos, chegam a criar bactérias em laboratórios.
Neste contexto, filhinha, sobressai o nosso sentimento de impotência e preocupação com o seu futuro, que, eu e sua mamãe, desejamos seja intenso de felicidade. Mas, reconheço, não há motivo para tanta ansiedade, um dos meus grandes defeitos. A imensa paz que brota do seu rostinho nos dá a certeza de que sua vida será imensamente abençoada; de que a sua geração trocará as armas e as drogas pelos livros e pelo amor; de que o mundo que virá adiante não mais se conformará com as cenas que hoje assistimos; e que a ciência e a educação dos povos tornarão os pequenos insetos, novamente, inofensivas criaturas. Perdoe, minha filha, se este foi o mundo que te legamos.
A grande esperança reside na promessa que Deus deixou escrita no mais importante dos livros, a Bíblia, cuja leitura desde já te aconselho: ''Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu; há tempo de nascer, e tempo de morrer,... tempo de chorar, e tempo de rir..., tempo de guerra, e tempo de paz'' (Eclesiastes, capítulo 3: 1-4, 8).
Que o seu semblante de paz, dádiva divina, nos inspire a construir um mundo melhor.''
JÚLIO CESAR RODRIGUES é advogado em Londrina

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