Perdão dos credores
Ricardo Prochet
A notícia que está pululando trata da questão do perdão da dívida dos agricultores, matéria tão delicada que chega às vias de unir tradicionais antagonistas como os com-terra aos sem-terra, que prometem em tumultuada mobilização, invadir o Planalto em gloriosa e memorável passeata, marcando definitivamente o valor e a força de suas reivindicações, tudo diante de um estarrecido presidente, preocupado com o índice de sua popularidade que despenca ladeira abaixo dia após dia.
O sucesso do planejamento visando aos objetivos nacionais permanentes leva em consideração o perfeito balanceamento entre as expressões do poder nacional, que são respectivamente as conjunturas econômica, psicossocial, política, militar e de ciência e tecnologia.
Não haveria de esperar por resultados diferentes em pesquisas o nosso presidente, ao julgar que somente a adoção de medidas na área econômica, em prejuízo das demais conjunturas que compõem o sistema, lhe asseguraria a popularidade desejada.
A solução adotada para a questão econômica, questionável sob o ponto de vista técnico, acabou por agregar novos problemas aos já existentes, tais como aumento do desemprego a afetar diretamente a conjuntura psicossocial da Nação, a falta de dinheiro necessário a suprimir parte da defasagem existente na área científica e Tecnológica e finalmente a desagregação política à medida em que investimentos importantes nas áreas de saúde e educação deixaram de ser processados, deixando o povo que o elegeu sem encontrar refúgio seguro em qualquer uma das conjunturas e um sem-número de analistas perplexos, prevendo o que ainda está por vir nos próximos anos.
Voltando à questão do perdão da dívida dos agricultores: em economia não existe a figura do almoço grátis e muitas coisas que ingenuamente atribuem-se ao governo como pagador, na verdade o são pela sociedade, que tanto já oferece à Pátria, recebendo pouco ou quase nada em retribuição.
A alegação de que a agricultura seria responsável por substancial aumento do Produto Interno Bruto (PIB) através da conta de exportações e ainda, que no caso de uma interrupção de suas atividades levaria o País ao colapso econômico não justifica de forma alguma o perdão da dívida, ou serviria também como desculpa a outras atividades que igualmente geram recursos ao Tesouro Nacional a duras penas de seus empreendedores.
Os empréstimos renderam divisas a seus tomadores, que conheciam as causas e riscos de suas ações; ou então, porque não perdoar igualmente as empresas que tomaram dinheiro nos bancos e os cenários não contribuíram para a geração dos recursos esperados levando-as ao fechamento definitivo e destituição de seus patrimônios em favor dos credores?
No início do corrente século, um economista e sociólogo italiano chamado Vincenzo Pareto, ao estudar a distribuição de renda de sua região apurou que 80% da mesma estaria concentrada em somente 20% da população, criando a partir dessa observação o ‘‘Princípio de Pareto’’, onde vemos que ‘‘não importando a área ou a atividade, 80% dos retornos que você obtém provêm de 20% de seus investimentos’’, ou seja, 80% dos lucros de uma empresa provêm das vendas de 20% de seus produtos, 80% dos votos de um candidato provêm de 20% de locais, e assim por diante.
É necessário que se esclareça a população como um todo de que os que se sentem mais prejudicados com a questão dos juros respondem por pequena parcela dentre o total de participantes da carteira de empréstimo e que são responsáveis por maior parte da dívida total, confirmando os estudos realizados por Pareto no passado.
É de fundamental importância que a sociedade comece a participar ativamente dos rumos que se pretende dar para a Nação, manifestando-se contra atitudes que depõem contra o bom senso econômico e administrativo, e ainda, que se os devedores se organizam numa passeata de 100 mil participantes, que nós, os verdadeiros lesados nos organizemos em 200 mil ou mais evitando que o precioso e necessário recurso de áreas de interesse comum sejam desviados para atividades que contemplem uma pequena parcela de perdulários que de forma alguma merecem nosso perdão.
- RICARDO PROCHET é professor universitário em Londrina

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