LIÇÕES DO GENERAL
A arma niquelada brilhava na mão do assaltante e lá se foi, nas ruas de São Paulo, mais um carro roubado. Um número a mais entre as dezenas de cada dia, o caso não teria a menor repercussão se não fosse do ministro da Justiça e o veículo estivesse com a mulher dele. As teorias costumam evaporar-se quando se sente o drama na própria pele. A violência envolve a todos e atinge a quase todos, direta ou indiretamente. É assim, como personagens e não como espectadores, que muitos mudam de opinião da noite para o dia: pimenta nos olhos dos outros costuma ser vista como colírio.
Enquanto isso, como se esta época fosse de rever conceitos, olha-se para o Rio de Janeiro, com as tropas do Exército nas ruas, e a discussão sobre a força terrestre entrar ou não na tentativa de colocar ordem na cidade. As autoridades estão fora de prumo. Nos últimos dias, o general James Hill, chefe do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, disse o seguinte sobre tropas e criminalidade desafiadora: ''A ameaça hoje é o terrorista, o narcotraficante, os traficantes de armas, o forjador de documentos, os chefões do crime internacional e quem lava o dinheiro''. Fora o ''terrorista'', que os norte-americanos estão vendo por toda parte, mas considerando-se que bandido também espalha o terror, o general está sintetizando com precisão o conceito de ''ameaça''. Disse mais o general Hill: ''Precisamos ter a coragem e a honestidade para avaliar como nossas Forças Armadas são configuradas, treinadas e equipadas''. É isto: coragem (rara) e honestidade (incomum) na hora de se apreciar o assunto. Analogia: se um grande incêndio está destruindo um lugar, os bombeiros vão agradecer bastante a ajuda de voluntários. E se a sua casa estiver pegando fogo, você quer ver o incêndio apagado, pouco importando que as chamas sejam debeladas por bombeiros militares, municipais, escoteiros e padres, freiras e pastores, seja lá quem for. Você quer fim do fogo e não discutir quem por força de lei deve fazer exatamente isso. Márcio Thomaz Bastos, o ministro da Justiça, não apóia os homens de verde-oliva nas ruas. O Ministério da Defesa e a decorativa Secretaria Nacional de Segurança Pública também não. Sugerem, então, ações de ''inteligência'' (?) do Exército e da Polícia Federal para compensar a deficiência policial. Ora, se, como dizem, o Exército não estaria ''preparado'' para fazer frente a criminosos, obviamente não teria como ficar fazendo relatórios sobre bandidos, investigando a vida deles. Pensar assim é imaginar uma nova força pública, em moldes de Guarda Nacional, ou coisa parecida.
O Governo do Rio quer o Exército nas ruas. O governo federal de esquerda sente-se incomodado com a concessão. E os bandidos, que não são nem de esquerda e nem de direita, e muito menos ideólogos, aproveitam-se do vácuo - hesitante e temeroso - e dominam a situação. Então, vamos pensar e repensar. Do jeito que está é que não pode continuar.

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