Prender e Soltar

  Foi uma das imagens fortes da semana: o senhor de idade, 82 anos, empresário no interior de São Paulo, voltando para casa após um longo cativeiro, que começou em setembro do ano passado, depois que o chefe dos sequestradores foi preso em Curitiba. Uma quadrilha intermunicipal e interestadual.
  Belo ponto para a Polícia Civil paulista. Mas por trás do grande êxito, um fracasso monumental sobre apreciação de provas através de um promotor e uma juíza, ambos de Salto, outra cidade no interior de São Paulo, onde foi sequestrado, também permanecendo longo tempo em cativeiro (120 dias), o empresário Roberto Benito Júnior. Sabe-se agora que os bandidos desses dois casos, e muitos outros mais, são simplesmente os mesmos. E se não fosse o fracasso de Salto, muita coisa gravíssima poderia ter sido evitada.
  Os bandidos que extorquiram a família de Benito Junior receberam o pagamento do resgate em dólares. Antes, o delegado Everardo Tanganelli, então seccional de Polícia na região de Salto, numerou as notas e as fotografou. Conseguiu prender um bandido com parte desse dinheiro numerado e fotografado, um carro BMW comprado com o dinheiro identificado e o doleiro que trocou o dinheiro por reais. Certo de que havia feito um dos melhores trabalhos de sua vida, o delegado apresentou seu trabalho através de inquérito policial. O promotor Marcelo Moriscot achou que essa prova não valia nada. Disse que estar com o dinheiro do resgate não queria dizer ter participado do crime. Pediu o arquivamento do inquérito, sendo prontamente atendido pela juíza Beatriz Almeida Prado Costa, que mandou soltar os bandidos. Este, sem tirar nem por, o resumo do caso. Rapidamente, os demais bandidos assassinaram o doleiro Osman Hassan Issa e o outro parceiro de sequestro caiu no mundo. Tranquila, a quadrilha continuou a praticar seus crimes, inclusive o do empresário octogenário. Pergunto-me, pergunte-se: como é que pode?
  Nietzche diria que certas convicções são mais inimigas da verdade do que as mentiras. No caso, a convicção de haver necessidade de complementação de provas seria manifestada com um indispensável pedido de novas investigações. Arquivar o inquérito significa jogar uma pá de cal em cima de tudo. E sem denúncia não tem processo. A juíza olhou e concordou. Não precisaria ter concordado (na hipótese, poderia ter mandado os autos para o procurador-geral de Justiça).
  Soltos os bandidos, um probleminha a resolver: que fazer com os dólares produto de crime apreendidos? Problema da Receita Federal, decretou o promotor de curiosas posições. O delegado, promovido para a capital paulista para ser o operacional do Departamento de Narcóticos, levou consigo as cópias de tudo o que havia descoberto, continuou investigando e desarticulou, assim, uma das maiores e mais perigosas quadrilhas que estavam agindo impunemente no País.
  Consultado por sua decisão esquisita, antes de todos esses desdobramentos, o promotor disse com ironia: ‘‘Se tiver medo de errar, vou trabalhar com jardinagem’’. Mesmo sem medo, errou. Mas não vai ser jardineiro.

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