PERCIVAL DE SOUZA - Pó e diamante
Pinheiro Landim usou da malandragem comum entre as raposas políticas. Surpreendido com a investigação que o liga ao tráfico de drogas, ou pelo menos a grandes traficantes, imaginou ter encontrado a saída para a sinuca de bico renunciando ao mandato de deputado federal, em janeiro, para assumir um outro, em fevereiro. Não colou. A nova mesa diretora da Câmara reabriu o processo de investigação e, desta vez, Geraldo Brindeiro, o procurador-geral da República, não engavetará: vem aí denúncia criminal contra o deputado, ex-PMDB e agora sem eira nem beira.
Acontece que esse pepino tem como eixo principal a venda de habeas-corpus e liminares em cortes superiores de Justiça. A acusação é baseada em escutas telefônicas, feitas pela Polícia Federal com autorização judicial, nas quais o deputado aparece muitas e muitas vezes falando sobre esse assunto, que ainda no terreno das suposições envolve magistrados e mais algumas figuras carimbadas. A investigação foi chamada pela PF de ''Operação Diamante'' e se direcionou no tráfico de cocaína, o pó branco que faz grandes estragos, procura delírios e alucinações, e mesmo assim encontramos quem o defenda com unhas e dentes, para animar-se e desobstruir bloqueios existenciais. Mentem sobre tais estragos e sobre maravilhas do desfrute do prazer, detalhe que não vem ao caso, aqui, comentar.
A melhor coisa, numa situações dessas, é tirar a prova dos nove. Em Brasília, consegui ver o conteúdo das tais conversas, degravadas em 107 páginas. Cópias estão no Superior Tribunal de Justiça e no Tribunal Regional Federal da 1 Região. Também aparecem nessas conversas um advogado, o filho de um desembargador e uma juíza que fala ao telefone como se fosse assessora jurídica de comerciantes do pó. O advogado, Wilson Torres, conversa com Leonardo Dias de Mendonça, um traficante que pode ser comparado ao colombiano Pablo Escobar dos tempos iniciantes na carreira da cocaína. ''Acho que é facim'' (traduzido: é fácil), diz um. ''Aquilo deve ser uns 500, né?'' (traduzido: US$ 500 mil), diz outro. Sobre andamento de pedido de hábeas-corpus, o advogado (que não se comporta como bacharel mas apenas como empregado de Leonardo) ouve do deputado: ''Tem que ser na hora certa, para cair na pessoa certa. Isso é uma estratégia''. A estratégia, no caso, seria saber para quem se distribui o pedido. O deputado deve levar chumbo. E o resto? Não se assuste, leitor, porque é isso mesmo: o poder do tráfico chegou muito mais longe do que você possa imaginar. Aliás, recentemente o Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul exonerou um magistrado, Marcos Antonio Sanches, acusado de vender decisões para traficantes em troca de dinheiro, uma locadora de veículos e um caminhão para transporte de bois.
Resumo da ópera: o consumo de drogas que nos assusta, pelas consequências que provoca, tem raízes profundas. Os traficantes envolvem tudo e todos. Evidentemente, não basta mais apenas escandalizar-se. É preciso agir, e de preferência na companhia de um pequeno advérbio: já.





