Filosofar é realmente algo a que o ser humano, inserido em qualquer meio social, está fadado a não ter como fugir. Mesmo o indivíduo mais alheio aos acontecimentos do mundo não consegue ficar imune totalmente, pois sempre há algum fenômeno capaz de lhe provocar inquietude. Comigo as coisas não se passam de um modo diferente, e, por isso, existe uma coisa que vem, nos últimos tempos, provocando-me perplexidade.
Costumo, aos finais de tarde de domingo, sair a caminhar pelas ruas da cidade para respirar, olhar a natureza, observar o movimento etc., e venho notando, já tem um certo tempo, grupos de transeuntes tais como eu, mas que são possuidores de uma estética muito peculiar e carregam sempre um livro debaixo do braço. Estas pessoas, dentre as quais se contam homens, mulheres e crianças, são, caro leitor, adeptos de alguma destas tantas religiões populares existentes hoje em dia, que se encaminham candidamente para algum templo religioso a fim de assistir e participar do esperado culto dominical. O material bibliográfico que carregam consigo, por sua vez, é o respeitado texto bíblico.
Sabe-se que este episódio por mim descrito não é um caso isolado que se nota nas cidades de nossa região, pois algo semelhante é evidenciado atualmente em todos os cantos do País sendo um fenômeno que atinge dimensões bastante robustas em todas as nossas metrópoles. Este evento, a propósito, não se enquadra na modalidade dos acontecimentos naturais, dado que se o fosse viria se desencadeando desde sempre. Ele revela, em verdade, o ‘‘desconforto espiritual’’ por que vem passando o cidadão brasileiro de alguns tempos para cá.
Deve-se, é claro, reconhecer o valor da religião para o homem e também seu papel intransferível no interior da ordem civil. Por um lado, a experiência religiosa permite ao indivíduo o contato com o autor de todas das coisas e, por outro, dá-se com ela o resgate de valores morais importantes para o equilíbrio e a subsistência da sociedade dentro dos quadros de sua legitimidade, como o são a solidariedade, a fraternidade, a justiça, o respeito etc. Todavia, o dia de domingo, cujo energia toda do devoto é usada para ir à igreja, é dia de passear com a família no parque, de levar os filhos ao circo, de jogar bola, de namorar, de ir ao cinema etc.
Nos últimos dias, a televisão, os jornais, as revistas têm concedido grande publicidade ao problema da dívida externa brasileira e é justo que isto aconteça. Mas, o que é que realmente existe de concreto neste plano? O que há mesmo é uma enorme dívida interna dos governantes com o nosso povo de uma forma geral. Tal déficit, constituindo-se numa realidade concreta, faz o homem comum sentir todo o peso da existência e experimentar este desespero que o leva a ter a igreja como uma fuga de seus problemas de toda a ordem, que emanam da indiferença daqueles indivíduos em suas homéricas manobras políticas.
A religião, como já dissemos, é algo muito bem-vindo, e aderir a alguma delas responde, de certa maneira, a uma tendência e a uma necessidade interna do ser humano. Porém, quando a religião serve de alimento ao misticismo, à superstição, à ignorância, quando se põe como obstáculo ao desenvolvimento integral do homem, ela se revela plenamente perniciosa. Quer dizer, no momento em que se encaminha dessa forma, esta empresa coloca-se a serviço da opressão defendendo os interesses dos ricos, coisa que já realizou no decurso do mundo medieval testemunhando e assumindo a cumplicidade de um volume gigantesco de absurdos e injustiças.
Espera-se que a religião não se revista para todo o sempre com esta máscara. Voltaire, grande escritor francês do século XVIII, não pôde conviver, em sua época, com esse papel desempenhado pela religião, e, sem negar a existência de Deus, procurou com toda sua energia física e espiritual contribuir para a sua derrocada e esfacelamento. Em um dado escrito, seus termos são claros no que respeita ao que se deve fazer: ‘‘É preciso tomar partido.’’ Seu preceito moral conclusivo, não obstante seja contrário à idéia de que vivemos no melhor dos mundos possíveis, é otimista porque deposita suas fichas na certeza da chegada de dias melhores: ‘‘Um dia tudo estará bem, eis a nossa esperança; tudo está bem hoje, eis a ilusão.’’ Quando este dia chegar aqui nesta parte dos trópicos e que as coisas estiverem, por conseguinte, bem ajustadas, o homem habitante deste terra, que não é assim tão ‘‘gentil’’, poderá exercitar sua religiosidade sem se ver coagido.
- ARLEI DE ESPÍNDOLA é professor de Filosofia em Toledo

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