Não é sem razão que este emblemático 2001, a aurora de um novo século, tenha sido oficializado pela ONU como Ano Internacional dos Voluntários, Ano Internacional da Mobilização contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância e Ano Internacional do Diálogo entre as Civilizações. Sob o guarda-chuva desse amplo calendário de mobilização cívica das Nações Unidas encontram-se, na verdade, os principais problemas a serem equacionados pela humanidade, que se manifestam de forma mais virulenta no chamado Terceiro Mundo.
As disparidades de renda e qualidade de vida entre os continentes e entre as distintas camadas da sociedade, especialmente nas nações pobres, agravam-se com a globalização, acentuam a exclusão social e ferem o princípio básico da democracia: a igualdade de oportunidades. O Estado, há muito, não tem como equacionar as questões sociais. Daí a importância do voluntariado, em ações individuais e coletivas. A ação da sociedade civil nas questões públicas cresce de maneira significativa, no Brasil e em todo o mundo. Não é exagero afirmar que, filosoficamente, a presente era define-se como a da consciência ética e da participação de todos os segmentos na erradicação dos problemas que continuam impedindo a humanidade de ser mais feliz.
Assim, desponta o trabalho das empresas, fundações e institutos no âmbito do Terceiro Setor, compartilhando com o Estado a responsabilidade social, na educação, cultura, atenção à criança e ao adolescente, formação profissional e saúde, dentre outras áreas. O empenho pelo bem comum, motivado pelo entendimento de que a questão pública não é dever apenas do governo, pode e deve ser feito dentro daquelas organizações e também fora delas, em esforços coletivos e individuais.
Tomando o Brasil como exemplo, fica muito fácil entender a importância do calendário cívico mundial instituído pela ONU neste 2001. Afinal, tudo o que a ONU tem a intenção política de combater com seu calendário de mobilização cívica para 2001 - miséria, intolerância, xenofobia, preconceito, desentendimento entre pessoas e povos e violência - está presente (e como!) no dia-a-dia do brasileiro.
Recentemente, o presidente Fernando Henrique Cardoso lançou um pacote social de R$ 67 bilhões para solucionar um quadro social, cuja mera síntese já é assustadora: 57 milhões de brasileiros, ou 35% da população, vivendo em condições de pobreza total (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea); vale lembrar que o Brasil é um dos últimos colocados no ranking de distribuição de renda medido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Na esteira desses números, a exclusão, o analfabetismo, a falta de educação, saúde e moradia, a criminalidade... Este último, fruto podre dos demais problemas (é claro que não se deve esquecer o crime organizado, que não tem causas sociais), é o fator de maior preocupação do brasileiro, acuado diante da violência dos marginais e da ousadia de grupos organizados. É inquestionável: o trabalho voluntário – da sociedade, empresas, fundações e ONGs – torna-se imprescindível. Esta mobilização também extrapola as instituições e os programas macro, devendo envolver, necessariamente, todos os indivíduos.
E a ação voluntária não se limita apenas a doar dinheiro a causas justas, participar de movimentos organizados ou ajudar instituições. Em primeiro lugar, é necessário controlar os comportamentos e ímpetos de violência estimulados, numa relação de causa-efeito, pelo próprio medo da criminalidade, o estresse e os problemas de uma cidade grande. Ter mais calma no trânsito e cumprir suas leis, evitando situações de conflito, respeitar o direito do próximo, não querer levar vantagem em tudo, lembrar que, nas filas, as gestantes, idosos, mães com crianças de colo e portadores de deficiência têm prioridade são comportamentos cívicos que, embora possam parecer banais, favorecem a harmonia e desestimulam a violência.
Outra medida importante é estar ao lado dos filhos, orientá-los, dar-lhes amor, tratá-los clínica e psicologicamente, quando necessário, afastando-os das drogas, cujo consumo, além de todos os danos físicos e mentais que causa, gera vultosas receitas para o crime organizado. Não comprar objetos e bens de procedência duvidosa, sabidamente produto de contrabando, roubo de cargas, furtos, falsificação e pirataria, é outra e eficaz maneira de desestimular a criminalidade. Esta organizada indústria somente existe porque encontra mercado. Ao se adquirir, por preço claramente irreal, um aparelho eletrônico numa esquina qualquer, está-se levando falsa e insipiente vantagem. O dinheiro desta venda poderá financiar a arma com que se será assaltado no dia seguinte....
Talvez seja a ação de cada pessoa o fator mais importante nessa cruzada a favor do social, da qualidade de vida e contra a violência opressora. O Brasil, como qualquer nação, somente irá solucionar seus problemas mais graves se houver o engajamento pleno de todos na causa pública. Engajamento que começa com os pequenos gestos do cotidiano.
- MILTON MIRA ASSUMPÇÃO FILHO é presidente da Pearson Education do Brasil e da Makron Books

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