Há na cultura de massa, uma casta formada por deuses do cotidiano, mais conhecidos, entre nós, pela condição humana de estrelas da TV e do cinema, grandes esportistas, políticos e governantes famosos, frequentadores das passarelas da moda e dos salões perfumados das elites. O toque comum a todos eles é a imensa visibilidade que conseguem dos meios de comunicação. Por isso mesmo, cultuados pelas massas, conseguem espaços de poder e influência e arrebanham multidões de admiradores e devotos. Cai-lhes muito bem o bordão de ‘‘olimpianos’’, dado pelo sociólogo francês Edgar Morin. Enquanto vivem nas alturas do Olimpo, deliciando-se com o banquete da fama, os outros, pobres mortais, vivem sonhando com a idéia de, um dia, poderem vir a provar o néctar do paraíso.
A divisão entre olimpianos e mortais estaria equilibrada, não estivesse o Olimpo tão cheio de deuses vaidosos, parciais e vingativos. Pois ninguém consegue imaginar um Céu povoado de maldade. Céu combina com os ideais de justiça e dignidade. E o pior é verificar que, dentre os piores espécies que frequentam o Olimpo, estão representantes de uma imprensa adjetivada, que se assenta no pedestal da onisciência e da arrogância. São principalmente colunistas que usam espaços de colunas para arremeter contra pessoas, tirar inferências apressadas, fazer julgamentos descabidos, transformar, enfim, fofocas de primeira boca em informações enviesadas. Infelizmente, mesmo nos grandes jornais, o colunismo diário tem se prestado a cultivar ‘‘notas plantadas’’, balões de ensaio, queimações, elogios, conclusões abruptas e informações parcializadas.
A área política está infestada de gente que age de má fé. Alguns são desinformados e despreparados. Resvalam frequentemente pelo terreno da informação apressada, frequentemente desmentida. Outros preferem usar a qualificação do adjetivo ao invés da objetividade do substantivo. Felizmente, há, entre os próprios colunistas, aqueles que fazem a crítica da imprensa, como Luis Nassif, preocupado em situar os limites da ética e da responsabilidade. Não é por acaso que as instituições políticas nacionais se ressentem de coberturas adequadas, com informações que traduzam suas atividades e expressem sua verdadeira identidade.
O Congresso Nacional, por exemplo, nunca trabalhou tanto como nos últimos tempos. Basta querer analisar seus números. Continua a ser, porém, território de preguiçosos e corruptos, pois a imprensa ligeira prefere abrir espaço para os desvios, a negatividade, a contramão e as disfunções. Na visão da imprensa brasileira, a parte continua a ser mais importante que o todo. Um parlamentar flagrado na corrupção passa a ser o protótipo da representação. A idéia de que ‘‘político é sinônimo de corrupção’’ tem na imprensa uma tuba de ressonância. Cria-se, assim, um fosso cada vez maior entre a sociedade e as instituições públicas. Os estilos pessoais na administração federal passam a ser prestigiados ou desprestigiados de acordo com o gosto de colunistas, juízes onicientes a fornecerem passaportes para o inferno, o purgatório e o céu.
Antigamente, colunistas eram os jornalistas mais preparados, com experiências no batente, capacidade intelectual, conhecimento de política, boa articulação com congressistas e quadros do Executivo. Nos últimos tempos, a política bandalizou-se, as matérias vão sendo construídas nos corredores, as pautas são pasteurizadas e homogêneas e os repórteres nivelados por baixo. O personalismo-emocional dá o tom da coluna, o texto é repleto de palavras chulas, a informação substantiva se esfumaça e um clima de fofoca agita a festa olimpiana desses pequenos deuses da arrogância. (Terrível é constatar que os piores colunistas provocam medo. Por isso, se diz que o colunismo agigantado está apequenando a imprensa).

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