Certos ou errados, bonitos ou feios, interessados ou desinteressados, ausentes ou presentes, alienados ou conscientes, os 513 parlamentares que sentam nas cadeiras da Câmara Federal representam o povo brasileiro. O periódico mandato que detêm pertence ao povo que os elegeu. Se não cumprem os compromissos assumidos junto ao eleitorado, são passíveis de punição com a derrota na eleição seguinte. Ganham novos mandatos, quando os eleitores acham que merecem. Portanto, não falta povo nas discussões e decisões parlamentares. A manifestação tumultuada das galerias no Congresso Nacional, ao invés de ser um contraponto à ausência de povo, como pregam seus inspiradores, é um ato autoritário e visivelmente direcionado às causas de grupos mais radicais.
O lobby - pressão que se faz sobre o sistema político - constitui certamente um dispositivo democrático, principalmente em uma sociedade que se reparte, de modo acentuado, em áreas de interesses e de defesa de princípios e valores. Mas não se deve confundir lobby com gritaria, balbúrdia, estado de barbárie. O que se viu no plenário da Câmara dos Deputados, há dias, por ocasião de sua invasão por cerca de 80 pessoas, foi uma agressão e um desrespeito à ordem institucional. Não se praticou o legítimo direito do lobby, como se pretendeu alegar. Promoveu-se selvageria. Não se fez a festa do povo, como alguns insinuaram. A facção ali reunida significava pouco em termos das massas representadas pelas maiorias parlamentares.
Não se trata, aqui, de entrar no mérito das questões, até porque as reformas em andamento - administrativa e previdenciária - não farão do Estado brasileiro um ente enxuto, moderno, sadio, em condições de saldar as grandes carências da sociedade. Trata-se de um pacote cosmético, de cunho casuístico. Com esta pontuação, voltamos ao cenário das galerias. As cenas de pugilato destacadas pela imprensa atestam o caráter pouco civilizado de grupos que querem comandar um programa de mudanças para o Brasil. O deputado Lindbergh Farias, integrante de uma tiborna partidária do Rio de Janeiro, concluiu sua performance de brutamontes, dias depois, debochando do Parlamento. Profetizou a própria sentença de absolvição, ao desacreditar na força ética e moral da instituição. Um escárnio.
Em nenhum Parlamento do mundo vêem-se invasões de plenários como a que assistimos. A democracia é o sistema aberto das idéias e do confronto das opiniões. Mas pressupõe respeito à ordem estabelecida, aos cânones, normas e códigos. Grupelhos enraivecidos que pretendem levar a melhor, na marra e no murro, bestializam o sentido democrático, conferindo-lhe a identidade de um ‘‘democratismo’’ fanático, adequado exclusivamente à estratégia do ‘‘quanto pior, melhor’’. Para eles, a visibilidade proporcionada por ações violentas garante a correia de comunicação que os liga aos últimos ‘‘sobreviventes’’ do tufão radical que soprou os ventos do universo, na primeira metade do século.
Não nos iludamos. Sempre haverá lindberghs farias, alguns mais outros menos afoitos, alguns mais outros menos valentões. Mas a consequência nefasta da cultura da quebradeira é o efeito cascata que atinge as oposições mais sinceras e honestas, tornando-as co-partícipes do palanque suicida. O mal cometido por alguns inocula os corpos daqueles que trafegam na mesma direção. Nada melhor para um Governo do que uma oposição mal feita. Não existe apoio maior para os governantes que a burrice de radicais, a selvageria de xiitas e o arroubo inconsequente de pequenos deuses da arrogância.

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