Pequenos cidadãos brigando por direitos
A atitude de crianças e adolescentes já lutando por direitos, como tem acontecido em Londrina, não deve ser encarada apenas sob o ponto de vista de perigos a que eles se expõem mas também por outros ângulos. Um deles, que os adultos responsáveis pelo setor público devem ficar atentos às reivindicações da comunidade (razões de agora dessas reações dos pequenos cidadãos), e outro que eles vão aprendendo desde cedo a manifestar-se contra a negligência e os abusos dos poderes. Melhor vê-los lutando por direitos do que nas ruas cometendo delitos.
Os fatos mostram que a infância já não é mais a idade da inocência, como diz em seu texto a respeito, neste Jornal, o repórter Luciano Augusto. Na semana passada, após verem um colega ser atropelado quando voltava da escola, um grupo de mais de 30 crianças interrompeu o trânsito no local ateando fogo em madeiras e pneus. Foi uma forma de protesto, pedindo melhor sinalização e a recuperação de uma viela para pedestres. O lugar é perigoso e ''ninguém faz nada para melhorá-lo'', declarou Rosilene Moreira, mãe do menino acidentado e que aprovou a atitude de bloquear a passagem. Outros pais de participantes do protesto também aprovaram a atitude dos filhos. Dias atrás dois jovens de 12 anos se mobilizaram e, por meio de um abaixo-assinado, reivindicaram a recuperação de uma praça em seu bairro. Eles ainda não foram atendidos mas declaram que vão persistir. Chegará o momento em que os poderes responsáveis reagirão positivamente. Melhor crianças assumindo posições de cidadania do que se esbofeteando nos ringues, como se viu recentemente, por incentivo de pais irresponsáveis.
Junto aos direitos, certamente os pequenos brasileiros também terão de ir aprendendo sobre as obrigações. É sabido que os adultos, por temor de sanções, deixam muitas vezes de manifestar-se, e assim o sistema governamental (aí incluídas as repartições públicas) se acomoda e, muito pior, acreditando que tudo vai bem se ninguém reclama.
As crianças têm sensibilidade para perceber erros e injustiças e também estão atentas às denúncias de corrupção, que ocupam a maior parte do noticiário. Elas vão criando conceitos, e muitos pais já ouviram de filhos adolescentes a pergunta ''por que eles fazem isso?''. Se os adultos ficam mais no resmungo e pouco se movem para reagir contra os desmandos (e não apenas do poder público), o que esses meninos estão fazendo é um sinal de despertamento. Com toda a certeza as ações que partem deles têm força e causarão maior impacto. Indiscutivelmente esboça-se aí um poder emergente.





