Trabalhei na roça até o ano passado e me preocupo com meu povo ‘‘lavrador’’, que está cada vez mais descapitalizado e intoxicado pelos agrotóxicos. Pequenos agricultores, a cada dia que passa, a cada ano, estão cada vez mais pobres, fracos, debilitados, quase que escravizados. Gastam todas suas economias, vendem animais, fazem financiamentos bancários, tudo para investir na lavoura. Precisam pagar à vista os insumos necessários para fazer o plantio, sementes, adubos, agrotóxicos, etc. É um trabalho árduo, dispendioso e sem segurança nenhuma, nunca sabemos se vamor ter uma boa colheita ou não. Nossos produtos nascem e crescem a céu aberto, estão entregues a todo tipo de adversidades climáticas e, apesar de todos esses riscos, geralmente nossos produtos agrícolas são mal remunerados.
Gasta-se também com projetos técnicos, emitidos por agrônomos ou técnicos agrícolas, que nada mais fazem do que fomentar e até exigir nas suas receitas que se use agrotóxicos conhecidos pelos agricultores. E aproveitam a oportunidade para fazer comercial de novos lançamentos. Exigem que se use sementes fiscalizadas, geralmente caríssimas.
Eles fazem as recomendações, mas nunca avaliam os danos, as consequências futuras. Pequenos agricultores e trabalhadores rurais geralmente são semi-analfabetos, não conseguem decifrar aquelas minúsculas bulas dos agrotóxicos, não tomam os devidos cuidados com o uso desses produtos, utilizados indiscriminadamente sem nenhum controle e critério. A agricultura tradicional, que resistiu por milhares de anos, foi substituída em poucos anos por soluções químicas, muito eficientes, mas também devastadoras.
Acho que os bioquímicos e engenheiros agrícolas dos laboratórios estão preparados e precavidos para lidar com agrotóxicos, mas por outro lado o homem humilde, da roça, não entende e não acompanha essas mudanças radicais. Somente as usa, e geralmente usa esses produtos químicos de forma incorreta, não toma os devidos cuidados. Alguns abandonam as embalagens no local onde abastecem o pulverizador, devido à necessidade urgente de aplicar o produto. Também não observam as condições climáticas favoráveis; outras vezes fazem coquetéis, misturas de produtos, para garantir que realmente matem a praga que está atacando a lavoura ou o mato. Mas não estão levando em conta o dano irreparável que estão causando ao meio ambiente.
Contaminando rios e nascentes, matando insetos benéficos, como as abelhas. Já encontrei, por várias vezes, pássaros e até animais de médio porte que foram mortos por comer mato envenenado. Penso que este ciclo de envenenamento já está atingindo também os seres humanos, porque há alguns anos da minha cidadezinha pequena, de cerca de 12 mil habitantes, saía para Curitiba a cada quinzena uma ambulância com doentes, precisando de médico especialista. Hoje o município conta com duas ambulâncias maiores, que se deslocam quase que diariamente, principalmente para o Hospital do Câncer, o Erasto Gaetner, e o número de habitantes lá continua o mesmo.
Comparo-me e também a estes pequenos agricultores ingênuos e desinformados, com formigas carregadeiras, que nascem com habilidade para trabalhar, são organizadas e dispostas a levar muito peso. Aí, então, entra o homem com sua astúcia. Iscas químicas que atraem formigas e induzem a carregar este veneno, achando, pelo seu instinto, que é algo benéfico para sua colônia. Fazem um esforço enorme para levar a morte para si e seu formigueiro. Não quero ofender ninguém, mas agora que estou vendo as coisas de fora, me sinto na obrigação de fazer alguma coisa pela minha gente e alertá-la porque todos estão sendo usados e agindo da mesma forma que as formigas.
Os fabricantes e revendedores destes produtos usam de todos os meios para mostrar o poder dos ditos ‘‘defensivos’’, das facilidades de aplicação e do seu poder destrutivo. Estas inovações foram imediatamente assimiladas pelos agricultores, que trocaram a enxada de cerca de 20 centímetros por um pulverizador de 10 a 15 metros, que em segundos devora tudo pela frente. Jogaram a isca e os agricultores foram atraídos. Ou traídos, não sei ao certo. Mas o que sei é que, hoje, os próprios agricultores correm atrás destes venenos e os levam para suas casas sem nenhuma resistência. Fazem, inclusive, recomendações a seus vizinhos, receitam novas misturas destes produtos químicos.
- JAIR MUNIZ RODRIGUES é ex-agricultor em Curitiba

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