Pequenino
Há mais de 2.700 anos, conhecemos a história de Odisseu, que levou 10 anos para retornar à pátria sem seus imediatos
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sexta-feira, 31 de julho de 2026
Há mais de 2.700 anos, conhecemos a história de Odisseu, que levou 10 anos para retornar à pátria sem seus imediatos
Douglas Giovani Ezequiel 
No novo filme de Christopher Nolan, acompanhamos a história de Odisseu em seu retorno ao lar, Ítaca. Apesar das inúmeras críticas sobre pautas políticas, a ponto de a produção ser entendida mais como inspirada na Odisseia que propriamente uma adaptação da obra de Homero, Nolan foi feliz no que fez. Dada a impossibilidade de se verter toda a riqueza literária para a linguagem do cinema, é evidente a qualidade da produção.
Há mais de 2.700 anos, conhecemos a história de Odisseu, que levou 10 anos para retornar à pátria sem seus imediatos. O motivo foi a ira de Poseidon, pois o herói havia cegado o ciclope Polifemo. Dois pontos me chamaram a atenção: o primeiro ocorreu quando Odisseu, disfarçado, finalmente encontra Penélope e lamenta o preço da vitória em Troia (uma bela reflexão sobre o amargor de se conquistar o objetivo almejado); o segundo é o diálogo entre Odisseu e a própria Atena.
Vou explorar esse último.
Após os homens de Odisseu terem cometido o sacrilégio que haviam prometido não cometer, qual seja, comer o gado do deus Hélio, o protagonista demonstra pouco espanto diante da fraqueza deles. Tirésias, no Hades, já havia previsto que Odisseu não conseguiria “salvar” os seus homens de suas próprias inclinações nefastas. Ainda assim, Odisseu assume a responsabilidade por não conseguir levá-los para casa.
Na interpretação de Nolan, destaca-se a fala de Atena ao eximir Odisseu da responsabilidade tanto pelas escolhas de seus companheiros quanto pelo fracasso em retornar à pátria. Odisseu, por sua vez, enfatiza que sim, foi ele quem os trouxe para os campos de Hélio e quem feriu o ciclope, os reais desencadeadores da situação.
Atena rebate, sugerindo que, por conta de seu orgulho desmedido de seu intelecto e de seus feitos — sua vaidade —, ele nem mesmo reconhece a parcela de “culpa” dos deuses, ou melhor, a influência das instâncias superiores. Os acertos e os erros resultam das escolhas de Odisseu.
Se observarmos bem, a perspectiva de Atena transparece a tateante condição humana, sempre válida porque atemporal. Odisseu prefere ser um humano culpado a ser um humano submetido a algo maior. A recusa em respeitar a hierarquia do cosmo dificulta o seu retorno para casa; o retorno em si é heroico, é verdade, mas desnecessariamente doloroso.
Somos levados a pensar, já com Homero, que o sacrilégio maior consiste em se enxergar como potência autônoma (que “faz acontecer” e “dono do próprio destino”), valores agora superestimados. Um humano “de alta performance”. Contudo, chegar a essa constatação, tendo como base uma perspectiva narcisista é algo indevido, propiciador de maior sofrimento na nossa jornada de retorno ao lar.
Quando o ser humano é incapaz de se ver como um pequenino ser submetido às forças do destino (mas não subjugado), ele deixa de reconhecer o seu lugar na criação. Culpar os deuses pelo quinhão deles no sofrimento humano poderia até parecer incorreto, fruto da ignorância. Mas note-se que, em comparação com esses mesmos arquitetos da sina humana, nossa própria ignorância em captar a ordem total dos fenômenos revela precisamente a pequenez e o lugar do homem no todo.
Não se trata de louvar a ignorância, mas de não cair no erro de se achar livre dela. C. Nolan bem reproduz a postura grega, a de que a maior desmedida seria, sendo homem, ver a si como um deus que tece o próprio destino em vez de se perceber submetido à tessitura desses outros.
Assim, podemos interpretar que a verdadeira jornada de Odisseu não foi a ocorrida por terra e por mar, mas a da experiência interna: de fragilização de seu grande ego paradoxalmente apequenado pelas circunstâncias. Ou melhor, transformado pelo fortalecimento de uma nova identidade — “sob medida”, eu diria —, compatível com a de verdadeiro soberano. Uma vez restabelecida a ordem desse pequeno cosmos, que envolve deuses e homens, é possível colocar a casa em ordem, a Ítaca.
Douglas Giovani Ezequiel, mestre em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina


