Pequenas lições para o País
Em Seis Propostas para o Próximo Milênio, palestras que pronunciaria durante o ano letivo de 1985-86, na Universidade de Harvard, se a morte súbita não interrompesse sua densa obra, Ítalo Calvino, o grande escritor italiano nascido em Cuba, tratou de objetos literários que gostaria que a humanidade preservasse na nova era que se inicia. Trata-se de uma das mais belas coletâneas de pensamento a respeito da complexidade das estruturas narrativas. Apesar de o foco centrar-se nos valores literários, seu engenhoso ideário pode ser levado para o campo da vida social e política, até porque Calvino incentiva adequar as noções ao uso que delas se quer fazer e ao gratuito prazer que delas se espera tirar.
Na trilha das propostas, roguemos que 2001 ilumine os nossos governantes tornando-os compromissários do valor da leveza. Diante da constatação amarga de que o grande esforço para preservar o valor de nossa moeda não tem arrefecido o insustentável peso do viver de imensa parcela de nossa população, as nossas preces apelam para que a democracia brasileira, esvaziada de conteúdo social, seja capaz de atenuar a disparidade entre classes. Não se exige a leveza literária pontuada nas imagens de extrema leveza, como o flutuar de pássaros, a voz de uma mulher que canta na janela, a transparência do ar e, sobretudo, a lua. Exige-se a leveza de um cotidiano mais tranquilo, menos inseguro, mais farto na cozinha, menos caústico.
A vida é cada vez mais breve. As coisas que precisam ser feitas reclamam tempestividade, urgência. Não esperem os governos pelo último ano das administrações. A rapidez, como valor do início do milênio, é a resposta mais lógica que se pode dar ao ciclo da velocidade, da explosão das comunicações, da era transnacional. Os brasileiros estão cansados de ouvir a lengalenga dos idos dos nossos bisavós, que, por décadas, elegeram políticos e enganaram as massas: Vamos construir a Pátria dos nossos filhos. Urge, sim, reconstruir a pátria, já, sem delongas, sem protelações, sem enrolação. O amanhã é hoje.
Lincoln disse: Podeis ludibriar uma parte do povo durante o tempo todo, ou o povo durante algum tempo; mas não podereis ludibriar o povo durante o tempo todo. O Brasil que ressurgiu das últimas eleições está comprometido com a exatidão, qualidade tão massacrada pelos padrões da velha política. O refrão hitlerista de que uma mentira repetida três vezes tornar-se-á verdade no quarto relato está sendo apagado da mente nacional. Basta olhar para aqueles que prometeram mundos e fundos, oportunistas e aventureiros. O elemento que os tornou fortes a mentira será a mesma arma que os tornará fracos.
Bobbio chama a atenção para dois fenômenos adversos porém estritamente ligados: o poder oculto ou que se oculta e o poder que oculta, isto é, que se esconde, escondendo. O País não aceita mais isso. As malhas do poder invisível precisam ser escancaradas. Daí a necessidade de darmos força à visibilidade, necessária para se poder acreditar nos governantes e nos representantes do povo. O País não aceita viver sob dois Estados, o visível e o invisível, este operado por estruturas corrompidas, gabinetes secretos, que tomam decisões políticas longe dos olhares do público.
Somos uma Nação de raças misturadas e ainda em processo de miscigenação. As culturas diferenciadas juntam-se aos valores mais nobres da vida o respeito, a lealdade, a espiritualidade, a força da fé, o companheirismo, a dignidade, a ética para criar uma identidade nacional. Há, portanto, uma força plural no País que merece ser considerada. Trata-se de observar e promover a multiplicidade dos sujeitos, das vozes, dos olhares sobre a nossa realidade e contemplar os seus anseios.
A última lição de Calvino foi interrompida por sua morte. Ele iria tratar do tema da consistência. Fiquemos com sua intenção para resgatar o valor da responsabilidade nas atitudes e ações. Responsabilidade implica seriedade, densidade, peso. O contraponto é a improvisação, a irresponsabilidade, o devaneio vadio, o jeito doidivanas de ser.
O Brasil que abre o milênio estaria mais próximo do valor da humanidade, esse valor que mereceu de Confúcio a máxima: A humanidade é mais essencial para o povo do que água e fogo. Vi homens perderem sua vida por se entregarem à água ou ao fogo; nunca vi alguém perder a vida por se entregar à humanidade.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e analista político
[email protected]





