Pensando Realmente
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de julho de 1997
Carlos Alberto Gandolfo 
Com a edição do Plano Real em 1994, uma nova realidade brasileira começou a ser revelada. Sentimos grandes e profundas alterações no desenvolvimento sócio-econômico brasileiro.
Muitos indicadores mostram evoluções. Mas por ser matéria econômica não deve ser avaliada isoladamente. São números que devem acima de tudo ser interpretados. Para isso devemos buscar uma contrapartida do indicador para uma análise.
Neste sentido, apresento alguns pontos vinculados diretamente ao nosso cotidiano, procurando e buscando uma reflexão, de como nós, cidadãos brasileiros, estamos vendo, sentindo e vivendo o Plano Real.
Muito ouvimos falar que aumentou a renda das classes mais pobres não alterando a renda dos mais ricos, mas este aumento nos extremos provocou um esmagamento nas faixas intermediárias.
Comentam também que melhorou a alimentação das classes mais pobres, isso porque, deu condições de consumo a diversos produtos até então inacessíveis a eles.
Este Plano mostrou aos brasileiros que existe, e é possível, uma economia estável, com índices de inflação anuais menores que as taxas mensais anteriormente vividas.
O comércio registrou significativo aumento na venda de eletrodomésticos. Proporcionando a muitos a compra da primeira geladeira, primeira tv e muitos outros primeiros bens.
Que maravilha! Muitos experimentaram situações jamais vividas. Dentro de uma estabilidade, com o aumento da renda e da oferta de crédito muitos foram as compras. Compraram de tudo, equiparam a casa, o guarda roupas, o carro, enfim agora tinham tudo o que precisavam ou queriam, até foi possível substituir o velho por um novo.
Mas, nem tudo foi tão bom assim. Estes aspectos, de reflexo imediato, encobriram outros que não são sentidos diariamente, mas trazem resultados que logo vamos sentir no bolso e no dia a dia.
Com crédito fácil, e altas taxas de juros, ficou difícil manter em dia as prestações assumidas provocando inadimplência e desequilíbrio no orçamento doméstico.
O novo Plano não reformou a pesada e antiga carga tributária e social das empresas, levando muitas delas a delicadas e frágeis situações econômicas e financeiras.
Houve uma diminuição na taxa de emprego com o aumento do número de empresas que, por um motivo ou outro, fecharam.
A rápida abertura do mercado brasileiro, atingiu muitas empresas.
A procura por produtos importados (alguns melhores e outros mais baratos) provocou um enorme desequilíbrio na balança comercial.
Baixaram os índices de inflação e também baixou a realidade cambial.
Não houve confisco, mas o dinheiro hoje é escasso.
Hoje o consumo mudou de perfil, houve uma grande mudança nos hábitos, usos e costumes, estamos nos enquadrado na nova realidade.
Vamos refletir juntos, existem tantos outros aspectos aqui não abordados, onde cada um deve analisá-los individualmente, e ao final, sentir para onde pende o fiel da balança.
Passei horas pensando, analisando, refletindo sobre diversos aspectos sociais e pessoais.
Conclui que este plano (para mim), foi de forma geral bom, mas ainda mantém um traço comum a todos os outros o que o antecederam, ou seja, o esforço maior empregado para manter a estabilidade foi da população e da iniciativa privada em seus ajustes e enxugamentos e muito pouco feito pelo inflexível e encharcado poder público.
Estamos comemorando três anos de Plano Real, mas sem dinheiro no bolso não posso comprar um presentinho para o aniversariante.
- CARLOS ALBERTO GANDOLFO é economista


