Pensando o Brasil
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de fevereiro de 2003
Nivaldo Cordeiro 
''A mola do desenvolvimento reside na confiança depositada na iniciativa pessoal, na liberdade empreendedora e criativa numa liberdade que conhece suas contrapartidas, seus deveres, seus limites, em suma, sua responsabilidade, ou seja, sua capacidade de responder por si mesma''. Alain Peyrefitte, em ''A Sociedade da Confiança''
Um olhar sobre a história do Brasil não pode deixar de causar duas impressões contraditórias. Por um lado, nossa unidade política produziu uma sociedade relativamente próspera quando comparada a outras localizadas no hemisfério meridional. Por outro, é frustrante a comparação quando o parâmetro tomado são as sociedades da Europa Ocidental, os EUA e, mais recentemente, o Japão e os chamados Tigres Asiáticos.
Penso que o aquilo que os brasileiros produziram em termos de desenvolvimento econômico se deve ao fato dadivoso de que nossa população tem produzido notáveis empreendedores que, a despeito de tudo, têm conseguido mover as alavancas do progresso. Por outro lado, não é possível deixar de notar que o contra-peso causado pelo Estado centralizado e de índole absolutista - imperante inclusive nos tempos de franca democracia, como os de agora - é o responsável último pelo atraso relativo e pelas dificuldades de todo o povo.
A ausência de uma autêntica revolução liberal e de um formato político federalista é que estão na raiz da relativa pobreza nacional. O Estado tem praticado, mediante concessão de monopólios, tributação em excesso, benesses concedidas ao arrepio da produtividade, irresponsabilidade na condução da coisa pública, especialmente a dívida pública e a administração da moeda, da regulamentação excessiva dos mercados, em especial o mercado de trabalho, tudo isso é que tem impedido que o Brasil tenha alcançado o assim chamado Primeiro Mundo.
O Brasil tem território, recursos naturais, população e domínio das técnicas de produção. Falta-lhe, todavia, as instituições necessárias para que a produção de riqueza possa ser feita na escala verificada no hemisfério ocidental. Em outros termos, a nossa elite dirigente jamais esteve à altura da potencialidade do nosso povo.
Os tempos de agora mostram que essa contradição foi agudizada e está à espera de sua superação. Nenhum progresso humano é linear e a possibilidade de involução está sempre presente, haja vista o exemplo recente da Argentina, tão próximo de nós. Cabe aos que têm consciência do processo histórico intervir para que as águas do rio procurem o seu leito.
É necessário repudiar todas e quaisquer teorias conspiratórias da história, que procuram jogar sobre os estrangeiros a responsabilidade pelos nossos males. É não apenas falso, é insano e procura desviar a atenção dos pontos realmente fundamentais. Aos homens conscientes cabe mostrar à sociedade política que só pela liberdade e pelo combate ao Estado centralizado e exorbitante (o que dá no mesmo) é que conseguiremos colocar o nosso povo em um patamar de vida superior.
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV-SP


