Pensando futuros alternativos globais
Na medida em que a mudança tecnológica e a globalização vão se acelerando, antecipar o futuro e preparar opções para a consideração dos eleitores está se convertendo na essência da liderança democrática. Por exemplo, o presidente Fernando Henrique Cardoso divulgou recentemente sua visão do que deveria ser o Brasil do Século 21. E uma conferência internacional sobre nosso futuro global foi inaugurada na Universidade Tamkang, de Taiwan, com o apoio do presidente Chen Shui Bian.
Estes novos dirigentes democráticos estão envolvidos em todos os assuntos vinculados à mudança tecnológica: a conversão da velha na nova economia, os conflitos sobre as fontes de energia, o clima e a contaminação ambiental, o abismo da pobreza, os postos de trabalho e as pautas para a proteção do consumidor. Eles sabem que devem olhar além do horizonte. E, assim como as multinacionais planejam suas estratégias de mercado e de produtos com décadas de antecedência, também devem fazê-lo os governos e os dirigentes políticos.
As pesquisas sobre os futuros possíveis estão saindo das salas secretas e sendo discutidas em conferências sobre o futuro da família humana em nosso Planeta interdependente. A cobertura dos meios de informação sobre tais conferências causa perplexidade, pois eles não consideram que as previsões de grande alcance sobre o futuro mundial sejam notícia. Mas, a definição de notícia também está mudando.
Muitas escolas de jornalismo estão patrocinando a realização de investigações mais profundas, incluindo as relacionadas à ética dos proprietários dos meios, editores e jornalistas ao dar conta das notícias. Dois casos recentes que ilustram o que acaba de ser dito são os exagerados conflitos sobre um par de obsoletas usinas nucleares, uma em Taiwan e outra na República Checa.
Em Taiwan, a recente ação do presidente Chen Shui Bian para manter a promessa feita durante a campanha eleitoral de cancelar a quarta usina nuclear do país (um terço da qual já foi construída) provocou uma tormenta de fogo na velha guarda do partido KMT, a qual Chen derrotou nas eleições de maio passado. O KMT e outras facções promovem a usina nuclear e apóiam a velha economia, opõem-se à nova economia de Chen e à sua visão de uma alta tecnologia limpa, que tornaria Taiwan uma ilha ecológica. O KMT segue em frente com seu temerário plano de submeter Chen a um processo para destitui-lo.
Na República Checa, continua a disputa com a vizinha Áustria sobre a usina nuclear de Temelin. Colocada em atividade em outubro último, esta usina, projetada pelos soviéticos, está mais perto de Viena do que de Praga. Em meio a protestos por parte daqueles que defendem uma nova economia com energia limpa e renovável, tanto do lado checo quanto do lado austríaco da fronteira, a Áustria ainda insiste em bloquear a inclusão da República Checa como membro da União Européia caso não feche esta usina.
Tanto a República Checa quanto Taiwan têm acesso a muitas alternativas ecológicas renováveis para atender a suas futuras necessidades energéticas, sem riscos de energia de origem nuclear e sem os altos custos de armazenagem do lixo radioativo. Mas, ali, como na Europa, Estados Unidos, Brasil, nos países da Opep e todas as nações produtoras e consumidoras de energia, as guerras energéticas, como o clima do planeta, estão esquentando.
Os setores da velha economia os dos combustíveis fósseis, nuclear, químico, da construção e outras indústrias pesadas ainda controlam os políticos e os legisladores através de suas associações comerciais, de campanhas publicitárias, da propriedade dos meios de comunicação e de sua influência por meio de lobby e das contribuições para as campanhas eleitorais. Os embrionários setores da energia renovável, a informação e a tecnologia verde da nova economia ainda não têm essa poderosa musculatura.
Mais crucial ainda será o controle dos meios por essas profundas forças que reestruturam as sociedades pela globalização tecnológica e a interdependência econômica. O debate nova economia X velha economia é um aspecto dessas profundas forças que agora estão mudando a base industrial de nossas sociedades e levando-as da tradicional utilização da terra, do material e da energia fóssil a um conhecimento mais profundo dos processos planetários e biológicos, a uma maior eficiência no uso dos recursos, à reciclagem, à energia renovável e à revolução da informação e das comunicações.
Na medida em que os meios de comunicação vejam com uma nova ótica os acontecimentos, as reestruturações econômicas e empresariais, os desastres naturais e os debates sobre a globalização, e informem consequentemente sobre eles, poderemos chegar a nos vermos nesses amplos contextos. Então, poderemos reconhecer as opções a longo prazo, as eleições e as oportunidades de nosso futuro. As investigações sobre o futuro chegarão a ser uma parte vital da política cotidiana e uma antecipação da democracia.
- HAZEL HENDERSON, de Saint Augustine/EUA, é economista e escritora especializada em questões de desenvolvimento sustentável do Planeta (IPS)





