A obrigação de escrever a coluna para a primeira edição do ano do ‘‘Caderno de Gerência’’ pega-me em pleno mar. Mais especificamente, ao largo da Costa do Chile, no Oceano Pacífico depois de ter percorrido lugares – para nós – tão legendários quanto a Patagônia, a Terra do Fogo, o Canal de Beagle e o Estreito de Magalhães.
Verdade que estou fazendo isso como passageiro de um quase prosaico cruzeiro marítimo, cliente de uma operação globalizada, que tem a nacionalidade oficial norueguesa, a bandeira panamenha mas o sabor, o cheiro e as cores, são inconfundivelmente norte-americanos, assim como a maioria dos hóspedes deste hotel flutuante, chamado Mercury, com nada menos do que 14 andares.
Esse extraordinário produto foi-me vendido pela CN Tours, do Rio, diante da minha consulta sobre alguma coisa muito repousante – e ao mesmo tempo estimulante – para duas semanas de férias entre dois milênios: uma oportunidade que, tenho certeza, nem eu nem ninguem terá duas vezes. Num dia 22 de dezembro, em algum momento do milênio passado, o meu hotel de férias 5 estrelas, durante 14 dias, estava a exatos 12 minutos de táxi de minha casa em Santa Teresa, ancorado no pier da Praça Mauá.
É verdade que não me trará de volta, deixando-me, com as malas cheias, em Valparaiso, de onde – espero – me levarão ao Aeroporto de Santiago para voar até o Rio. Mas poderia levar, se tivesse mais duas semanas, o dinheiro e a vontade.
Enquanto penso nisso, recebo – nesse primeiro dia do terceiro milênio – uma edição do jornalzinho de bordo em que o editor faz reflexões admiradas diante da contemporaneidade, parecidas com as minhas, num artigo não assinado, em que pergunta: ‘‘Você nasceu antes de 1945?’’. E explica a razão da pergunta, desfiando uma série de afirmações a respeito das ainda muitas pessoas que a podem responder afirmativamente.
Quem nasceu antes de 1945 – e tem mais de 55 anos – nasceu antes da televisão, antes da penicilina, da vacina contra a paralisia infantil, comidas congeladas, xerox, materiais plásticos, lentes de contato e antes da pílula. Antes do radar, dos cartões de crédito, da cisão do átomo, raios laser e canetas esferográficas, Antes de meias-calças, lavadoras de louça, secadoras de roupa, ar-condicionado, antes do homem ter caminhado na Lua, ou mesmo chegado perto dela.
Naquela época, um besouro era um inseto e não um tipo de automóvel; os casais casavam-se, primeiro, e depois iam morar juntos; gay, em inglês, significava ‘‘feliz’’; ninguém ouvia rádio em ‘‘FM’’ ou tape-decks, ou via video-cassetes. Aliás, não existiam nem máquinas de escrever elétricas – equipamento hoje obsoleto – órgãos artificiais, processadores de texto ou homens que usavam brincos, sem ser habitantes da Floresta Amazônica. ‘‘Hardware’’, em inglês, eram as ‘‘ferragens’’ , das antigas ‘‘lojas de ferragens’’ e ‘‘software’’ não era nem uma palavra, pois simplesmente não existia. Nos anos 50, qualquer produto made in Japan era de qualidade inferior, fumar era muito chique e erva designava folhagens de um modo geral.
Claro, pensei, enquanto lia as considerações do colega anônimo americano. E em 1945, o Titanic havia afundado há apenas 30 anos e os interesses voltavam-se para as novas possibilidades do transporte aéreo nas viagens internacionais. Naquele tempo, ainda se ia a Europa, aos Estados Unidos e a Buenos Aires ‘‘de vapor’’.
Para que o leitor não pense, contudo, que essa é uma crônica do tipo ‘‘Minhas Férias’’ – que a gente fazia nos primeiros anos do curso primário – quero esclarecer, rapidamente, que se tratam de reflexões sobre os próximos anos desse novo milênio.
Em 50 anos – como insiste em lembrar-me o cético Uchoa, companheiro de viagem – estaremos, quase todos os que viajamos nesse cruzeiro, mortos. Mas o que nos reservam os próximos 25? Ou 10? Em termos de produtos e serviços, certamente muito. Mas é bom lembrar que, apesar de tudo, as pessoas mudam pouco – e as motivações, que lhes dão significado à vida, quase nada.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente de instituição de ensino superior no Rio de Janeiro

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