A economia brasileira vive o quarto ano consecutivo de baixo crescimento e desafia os analistas a explicar o que está acontecendo com o país que na década passada impressionava o mundo com seu desempenho e que via o futuro com tanto otimismo. O sucesso de vendas do livro "Complacência: Entenda por que o Brasil cresce menos do que pode", assinado por Alexandre Schwartsman e Fabio Giambiagi, evidencia a sede de respostas que os brasileiros vivem neste momento. O que, afinal, mudou tanto?
Para Schwartsman, a explicação para os resultados medíocres está na baixa produtividade da economia. "Quando começa a faltar mão de obra, quando os salários começam a subir, não é possível mais crescer na força bruta", conclui o economista, doutor pela Universidade da Califórnia (EUA), diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central entre 2003 e 2006, proprietário da consultoria Schwartsman & Associados, professor do Insper SP e colunista da Folha de S.Paulo.
Para ele, o país só poderá voltar a trilhar o caminho do crescimento acelerado se implantar uma agenda de competitividade global nos próximos anos, derrubando as barreiras protecionistas, melhorando o programa de concessão de infraestrutura e enfrentando a inflação com corte de gastos.
Schwartsman estará em Londrina na próxima quarta-feira para fazer uma palestra a convite da construtora Plaenge. Do seu escritório em São Paulo, por telefone, ele falou à FOLHA sobre a conjuntura macroeconômica e listou os remédios, muitos deles amargos, para o País sair da letargia.

Por que o tema produtividade não estava na agenda econômica na década passada e passou a ser quase um tema obrigatório atualmente?
Porque o nosso crescimento na década passada foi baseado na força bruta. Naquela época, havia uma taxa de desemprego muito alta. Aquele crescimento foi mais baseado no ponto de vista da capacidade de produção, colocando a força de trabalho ociosa no mercado. Quando se tem muita mão de obra disponível, sua preocupação com produtividade é secundária, já que empregando-se mais é possível produzir mais Quando começa a faltar mão de obra, quando os salários começam a subir, não é possível mais crescer na força bruta. Nas condições atuais, quando alguém é contratado, deixa de produzir para o antigo empregador e passa a produzir para o atual. Ou seja, a produtividade estaciona. O desafio agora é fazer com que cada trabalhador produza mais.

De quem foram os méritos do crescimento acelerado da década passada e de quem é a responsabilidade do crescimento pífio dos últimos anos?
Do ponto de vista das políticas domésticas, os méritos do ciclo anterior pode ser atribuído a um conjunto de reformas – previdenciária, lei de falências, as mudanças no financiamento imobiliário - que começou no governo Fernando Henrique e se estendeu no governo Lula. Estes dois governos também tiveram o mérito de se esforçar para garantir a estabilidade da economia - não dá para crescer com inflação alta e descontrolada, colocando as contas públicas numa ordem razoável.
Não foi nada muito brilhante, mas hoje está muito pior. Além disso, havia os fatores externos, como a extraordinária alta no preço das commodities, que foi decisivo para os bons resultados no final do ciclo. Nos últimos anos, o baixo crescimento não está tão ligado às questões externas.

Como o cenário domésticos se depauperou?
O cenário não está tão favorável quanto antes mas permanecem bom. Os preços das commodities continuam altos. Isso pode ser constatado pelo desempenho dos nossos vizinhos: a desaceleração deles foi bem mais modesta que a nossa, se é que houve. No entanto, o cenário interno piorou bastante. Acabou a disponibilidade de mão de obra, não continuou o esforço reformista. A opção foi continuar investindo no aumento do consumo em uma economia cujo problema não é mais o consumo. O problema agora é a produção e a produtividade. Este é o grande equívoco.

O governo e a sociedade perderam a ambição de crescer mais?
Na verdade, alguns manifestações populares mostraram que a acomodação é mais do governo. Havia otimismo porque a gente ameaçou entrar num ritmo de crescimento que poderia dobrar o padrão de vida médio dos brasileiros a cada geração. Hoje, estamos conformados em fazer o mesmo em 70 anos. Tem um sentimento de frustração da sociedade. As pessoas querem mais. Ter um emprego e conseguir consumir um pouco mais é legal mas já aconteceu. Agora as pessoas querem ter um emprego melhor e ter serviços públicos melhores. Isso só é possível com um crescimento muito mais rápido da economia. E para isso é preciso lidar com a questão da produtividade.

A atual equipe econômica consegue enxergar a urgência deste desafio?
Eles não tem a capacidade e o discernimento de entender a natureza do problema. Tem limitações de entendimento e por isso estão usando o instrumental errado. Não é que eles não sabem a solução, eles nem entenderam o problema.

A baixa produtividade é um problema que pode ser vencido a curto e médio prazo?
A curto prazo, praticamente não. Mas até o final da década é possível avançar com um programa melhor de concessões em infraestrutura, com uma agenda de competitividade que abra a economia para o comércio internacional, o enfrentamento da inflação. Também poderíamos lançar uma agenda de reformas, principalmente a simplificação tributária.

Por que não conseguimos melhorar nossa infraestrutura?
De alguma forma, parece que o país perdeu a capacidade gerencial para expandir sua infraestrutura. A questão ambiental virou praticamente um tabu na administração pública brasileira. A questão das licenças ambientais se tornaram um inferno. Nenhum funcionário público quer colocar a assinatura e liberar a obra com receio de ser responsabilizado por um crime ambiental. Outra coisa: o conjunto de regras imposto pelas controladorias e pelos tribunais de conta, uma tentativa de combater a corrupção, mataram nossa capacidade de lidar com as demandas de infraestrutura. Mas há uma expectativa de uma certa melhora no quadro. O governo já está consciente de que não tem como o país melhorar sua infraestrutura sem a participação da iniciativa privada. Daí o programa de concessões que, claro, ainda precisa ser melhorado. Em linhas gerais, o governo ainda enxerga a concessionária como um agente do setor público e quer obrigá-la a fazer as coisas do jeito que ele faz. O concessionário quer ganhar dinheiro e o governo tem que entender esta dinâmica para oferecer editais mais atraentes.

Como a equipe econômica do próximo mandato presidencial deve enfrentar a inflação?
Dando autonomia ao Banco Central e fazendo o ajuste fiscal. Ou seja: cortar os gastos públicos na medida do possível e tentar reconstruir o superávit fiscal, que foi perdido nos últimos. Deixar o Banco Central fazer o que tem que fazer e, não tem jeito, aumentar a taxa básica de juros.

mockup