Condenada por adultério e por suposta participação no assassinato do marido, a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos, é mais uma mulher no corredor da morte no Irã. O caso dela, no entanto, teve repercussão internacional porque a condenação inicial foi de morte por apedrejamento. Por pressão da comunidade internacional, o país islâmico decidiu trocar a forma de execução pelo enforcamento. Até o Brasil, que mantém boas relações diplomáticas com o governo Mahmoud Ahmadinejad, tentou interceder. A oferta de asilo política feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, foi recusada.
A revolta contra a decisão partiu inclusive de países que têm pena de morte. E o presidente Ahmadinejad insistiu na tese da soberania da nação para fazer valer suas próprias leis. Mas até que ponto a autonomia do Estado e a tradição cultural, que respaldam a execução por apedrejamento ou enforcamento, devem prevalecer sobre o direito à vida, que é um valor universal?
Essa é a discussão que a antropóloga Liana Reis dos Santos aborda nesta entrevista. Para ela, cada ''sociedade tem o direito de colocar a norma que o coletivo acha que é o correto'', da mesma forma que a comunidade internacional tem o direito de se intervir. Intervenção que, para ela, deve vir na forma de protestos.
Por que a pena de morte ainda existe em pleno século XXI?
Toda e qualquer sociedade cria normas para que haja um padrão de comportamento do coletivo. Sem esses padrões ficaria inviável dar sustentabilidade ao coletivo. Quando a gente fala que ainda existe pena de morte, é a mesma coisa que dizer que a mãe castiga o filho quando ele diz alguma coisa errada. Você pune através do presídio, você qualifica o grau do crime - se ele é hediondo ou não - , mas fundamentalmente o que se está colocando é que são as leis e as normas que regem esse coletivo.
Os ocidentais criticam a morte por apedrejamento no Irã. A censura parte, inclusive, de países que também têm pena de morte. Existe alguma forma mais ''civilizada'' de executar um condenado ou a pena de morte é inconcebível de qualquer maneira?
O apedrejamento de mulheres é uma forma cultural daquela sociedade. Se está certo ou está errado, não tem como qualificar. O que é certo para eles pode ser errado para nós. Cada sociedade, diante de seus códigos, cria o certo, o errado, o normal, o anormal. Para esta sociedade, este traço cultural do apedrejamento, simbolicamente, é uma forma de punir esta mulher por ter transgredido uma norma, a norma de ter traído o marido. Classifica-se para nós ocidentais como não civilizada porque no nosso pensamento é inimaginável você apedrejar alguém porque traiu.
Não é legítimo que a comunidade internacional cobre uma ''evolução'' dos países que insistem em punições como o apedrejamento, no sentido de obrigá-los a respeitar os direitos humanos?
A expressão evolução nem caberia em termos culturais. Quando falamos em evolução imaginamos que toda e qualquer sociedade vai vivenciar uma linha linear. Eu acredito enquanto antropóloga que é um aspecto cultural que está presente na sociedade islâmica, mas a gente não pode dizer ou classificar como algo que tenha que evoluir.
Quando pesquisamos como as outras sociedades estão reagindo a isso, vemos que a grande maioria responde com indignação. Em pleno século XXI vamos remontar a práticas da Idade Média? Desde a Revolução Francesa, quando ''nascem'' os direitos humanos - liberdade, igualdade e fraternidade - , a gente pode dizer que todo cidadão tem direitos e liberdades. Dentro do próprio Islamismo pode haver quem não concorde com essa tradição.
Mas a sociedade tem o direito de colocar a norma que o coletivo acha que é o correto naquela sociedade. No entanto, se tira a vida, se afeta a vida, a sociedade internacional tem que intervir.
Então todos temos o direito à próprio identidade cultural, mas a comunidade internacional tem o direito de intervir?
A nossa forma de intervir é mostrar a nossa indignação, através de movimentos, de depoimentos. Se vai interferir na questão da vida, é uma tradição que tem que ser redefinida, reelaborada neste século XXI.
Então qual valor é mais importante: o respeito a uma determinada cultura ou aos direitos humanos?
São coisas muito diferentes. Toda e qualquer cultura na sua diversidade precisa ser respeitada. O respeito à diversidade cultural é importante, mas o direito a vida também. Este é a prioridade número um. As suas tradições, a sua língua, os seus costumes devem ser respeitados, desde que não tirem a vida do outro. Se vou tirar a vida de um outro da minha sociedade, toda a comunidade internacional vai intervir, vai mostrar diante do mundo a sua indignação, em relação à forma de punição.
O que a comunidade internacional deve fazer, portanto, é esperar que o Estado iraniano reveja seus conceitos e mude essa tradição cultural.
Diante desse diálogo multicultural é que pode haver a chance dessa sociedade reconfigurar essa tradição, reelaborar esse traço cultural. Porque para agirem dessa forma há um sentido simbólico. Que eles (os iranianos) possam reelaborar esse sentido simbolicamente. E que criem novos valores, mas que não remetam à morte, que valorizem a vida.

mockup