No dia 2 de novembro celebra-se o culto aos mortos, mas na verdade mortos não existem, porque nada morre. Não há outra palavra para definir algo que sofre essa transformação, e como a coisa se modifica, diz-se que morreu. Mas o que é que morre? Não se tem conhecimento de nada que tenha morrido. Um corpo físico, ao perder seu fluido vital, não perece, mas se transforma. O que era matéria com movimentos ordenados, transmuta-se em pó e passa a ser um outro organismo vivo, só que modificado. A terra é algo que vive. Assim não fosse e ela não faria germinar a semente.
Uma árvore chega ao ponto culminante e começa a entrar em decrepitude, mas seu tronco, seus galhos e suas folhas acabam convertendo-se em matéria orgânica. Nada portanto morre, mas se altera. Uma pedra, se fosse natureza morta, não iria passando por transformação em sua superfície e em seu núcleo. A textura de um mineral não é sempre a mesma, e com o correr do tempo sofre alteração, porque em tudo que existe pulsa vida. Um rio não morre, são as águas que mudam de lugar. Diz-se que uma flor nasce, murcha e morre, mas na verdade transmuta-se e dá origem a outras formas de vida.
O perfume contido no frasco é natureza transformada. Um edifício, um automóvel, são formas de natureza modificada. A fusão de minerais forma outra massa, porém nada desaparece. Nem o fogo extingue uma folha seca, mas a transforma em gás e cinza. Um ser não morre, porque seu espírito vivifica. Estão certos os que dizem que não existe comunicação com os mortos, simplesmente porque mortos não existem. A intercomunicação que se opera entre os que aqui ficam e os que se vão, nada mais é que uma relação entre vivos em circunstâncias diferenciadas.
No ``dia dos mortos``, a maioria das pessoas comparece aos cemitérios para reverenciar os entes queridos, mas eles já não se encontram lá, embora ali compareçam porque forçados, por nós, a esse ponto de encontro. Se, dentro de nossas casas, ou em qualquer lugar de preferência mais agradável e acolhedor, lhes entregarmos flores e lhes dirigirmos sentimentos de saudade e carinho, eles os receberão da mesma forma e com muito mais alegria do que num lugar sombrio. Em meio a choros e devaneios, eles ficarão tristes. O ``dia dos mortos``, como o celebramos, é sacrificante para eles. Então, deveria ser um dia de festa, sem necessidade das condoídas visitas a cemitérios.
Não há mal em visitar esses lugares, mas deveríamos fazê-lo levando aparelhos de som, para tocar as músicas que aquelas pessoas queridas gostavam de ouvir; levar nossos violões, nossas flautas, nossos violinos, nossas gaitas e até nossos pianos, e ali tocar e cantar, e onde possível dançar, se isto era de agrado dos nossos amigos que já foram para outra morada. Mas temos lhes levado lágrimas, sentimentos de dor e de falta, com posturas articuladas de reverência, de aparente vazio interior pela sua perda, quando nada se perdeu e nem eles apreciam nos ver sentindo isso e em posição de silêncio, como se ali houvesse mortos.
Todos os ``mortos`` estão, geralmente, melhor do que estavam aqui - porque aqui é a morte (se queremos admitir a palavra) e no outro lado a vida - e os que ainda purgam alguma dificuldade de elevar-se não ficarão melhores em função de nossa dor por eles e sim por nossa alegria e bom humor. Por que não, no dia 2 de novembro, levar bandas de música para os cemitérios? E nem será necessário ir lá, mas de preferência tocar e cantar e dançar em casa, nos jardins, nos lugares onde juntos desfrutávamos de momentos agradáveis. Que tal desta vez fazer diferente? Os ``mortos`` irão gostar.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup