O presidente FHC diz que basta os governadores da oposição (e supõe-se que também os da situação) quererem, que ele terá sempre as portas abertas para discutir os problemas do Brasil. Este é o discurso - e nunca se ouviu nem os ditadores dizerem o contrário - mas o que importa é saber se após a discussão o presidente acatará e porá em execução as propostas que lhe forem apresentadas. FHC tem se mostrado turrão e individualista. Porque não sabe ouvir e recusa-se a ver, preferindo atribuir as culpas a situações adversas da conjuntura internacional e às ‘‘cassandras opiniáticas’’.
Os governadores da situação, reunidos dias atrás no Maranhão, propuseram a baixa dos juros, mas parece que FHC não se tocou. FHC não reage. Só reage muito, e fica brabo, quando o criticam. Depois do Maranhão, os governadores da oposição, reunidos em Minas, fizeram-lhe idêntico pedido. E, na esteira, solicitaram a prorrogação de prazos para os Estados saldarem as dívidas com a União.
O que nunca cheira bem são estes pedidos de prorrogação de prazos de dívidas, porque os governantes, em todas as esferas, são incorrigíveis gastadores e desperdiçadores. Para não falar da corrupção, que neste Brasil viceja grudenta onde existe governo e dinheiro público.
Vejamos se, ao menos, o presidente FHC ouve e atende aos clamores dos 160 milhões de brasileiros que já estão roucos de lhe pedir a baixa dos juros. Mas parece que o presidente prefere ver as empresas irem à falência e os trabalhadores perderem o emprego do que diminuir o custo do seu real para quem precise ir buscá-lo (ou deve) nos bancos ou têm que financiar um bem de uso ou de produção. Ele teme que os brasileiros o gastem muito... Tem ciúme do real, que imagina ser propriedade sua. Meio patológico. FHC é o único brasileiro que não confia no real. Por isso ele teme deixá-lo correr solto.
A dinâmica da economia sustenta-se no dinheiro, mas o presidente que elegemos e bielegemos só tem olhos para os especuladores e investidores internacionais. Diz que ama o real mas demonstra paixão pelo dólar, a sua moeda amante. E o pior, uma amante traiçoeira e inconstante, que entra na calada da noite em nosso recesso, através das infovias, nos enche de desejos, mas sai de cena a qualquer momento, e assim como foi, de repente volta, a ponto de paquerar por cinco continentes num único turno...
Menos um estadista e mais um diplomata (quem sabe busca, no futuro, ser o secretário-geral da ONU), o nosso presidente gosta de brilhar não diante dos brasileiros, mas das autoridades internacionais. Vê-se muito pouco ele recebendo em palácio lideranças das áreas agrícola e industrial, ou visitando-as em suas bases. Está meio de costas para o Brasil. Agora mesmo, esta medida de liberar o câmbio não foi decisão dele, mas uma resultante do ‘‘efeito topete’’... FHC, contra a vontade, teve que engoli-la. Instalou-se no Brasil um certo governo paralelo, comandado por Itamar e os governadores da oposição, com o apoio não revelado mas consentido dos demais governadores.
Louve-se, a propósito, a postura das oposições, que ao invés do discurso vazio preferiram reunir-se e levar suas reivindicações diretamente ao presidente da República. Estes são os caminhos inteligentes.
A solução dos problemas brasileiros passa pelos caminhos de uma conscientização geral dos próprios cidadãos brasileiros, mas é certo que a Nação começou a despertar desde o brado de Minas.
Estes inconfidentes mineiros! Certa ocasião eles aprontaram uma para a Coroa... Foi preciso ter topete! Cabeças rolaram mas eles mudaram os rumos da história.
A dívida de Minas Gerais já vem rolando, foi negociada e renegociada, e a farra com o dinheiro público, lá como cá e acolá, tem sido parelha, mas não se pode negar que o Topetudo das Alterosas agitou a Nação. Não o teria conseguido se não houvesse sido presidente da República. FHC o teme, talvez mais o respeite, por ter sido Itamar seu patrão e o homem que o catapultou ao trono do rei. Itamar balançou as estruturas da República ao desafiar o poder central. Nem o poderoso ACM o conseguiria. Por estes dias a Nação brasileira está com dois presidentes. Anarquia? Não. Talvez a mais sublimada manifestação do sentido de federação e da própria democracia.
Mas o Brasil que queremos não será edificado nem por FHC, nem por Itamar, nem pelos ministros, nem pelos nossos representantes nas casas legislativas, nem pela legião de governadores e prefeitos. O Brasil será edificado pelos brasileiros! Se os governantes nos acompanharem, tanto melhor.
Agora temos de nos organizar como cidadãos. E continuar gastando, comprando as coisas de que precisamos, fazer nossas viagens, beber nossas cervejas. Senão, as fontes de produção não terão como colocar suas mercadorias, e o comércio não as venderá, a roda da economia deixará de girar, não haverá empregos. O próprio governo deixará de arrecadar os impostos daí decorrentes e não terá meios para desempenhar suas funções.
A hora, portanto, não é de aumentar preços e nem de poupança mesquinha, mas de continuar gastando. Não além dos ganhos, porque aí será contrasenso. Aqueles que estão empregados precisam gastar para proporcionar emprego aos desempregados. É assim que funciona. Produzir e consumir. Quanto mais, melhor. Nações altamente desenvolvidas são nações que produzem e consomem em grande quantidade. E o fazem não porque são ricas, mas ficaram ricas porque optaram por produzir e consumir. O sentido sábio de poupar é não esbanjar no desnecessário, é não desperdiçar. Mas o que mais se ouve por aí são pessoas influentes proclamando que devemos ficar recolhidos, guardando nosso dinheirinho no fundo do colchão, supostamente deixando de comer e de vestir, ‘‘esperando a crise passar’’. Ora, se fizermos isto, aí sim a tal crise não passará, mas se instalará.

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