Pelo fim da violência - Editorial
Pelo fim da violência
O lançamento ontem da campanha Londrina exige o fim da violência!, envolvendo as forças mais representativas da comunidade, traz um significado da mais alta importância: o de que a paciência de um povo cordato está no fim. Deixa evidente, também, o desenvolvimento pleno da consciência de cidadania que atinge hoje no Brasil um nível muito elevado. O londrinense, como de resto o brasileiro, vive atualmente uma nova realidade diante não apenas de seus deveres, mas dos seus direitos. Só nos últimos anos é que se percebeu esta mudança real na mentalidade da população. As sucessivas crises políticas e econômicas, a forma ainda imperial sem dúvida uma herança dos tempos anteriores à República com que o poder tratava o povo, tudo isto serviu para reduzir em muito a própria auto-estima do cidadão comum. Embora sendo uma República democrática, o Brasil tinha muito de uma nação cheia de privilégios. Os nobres foram substituídos pelos detentores do poder que se autoconverteram em quase donos do país e do povo. Quanto à população, era explorada e o pouco de liberdade que tinha era visto quase como uma oferta do próprio poder. Isto ficou bem evidente nos últimos anos do período totalitário: nos governos Geisel e Figueiredo, sem dúvida responsáveis pela chamada abertura, o Brasil passou a ter a democracia possível, a liberdade que o governo dava.
A redemocratização não mudou esta situação na plenitude desejada. É importante rememorar que surgiram da ação popular consciente as possibilidades para o fim da ditadura. Naquela oportunidade, o povo percebeu finalmente sua importância e assumiu o papel ativo de agente de seu próprio destino. Entretanto, foi com a verdadeira revolução consubstanciada no plano de estabilização, com a edição de algumas importantes leis, como a que garante os direitos do consumidor, com a verdadeira alteração de mentalidade que surgiu é que começou a se evidenciar a consciência de cidadania. Hoje, apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer, há um outro quadro na vida brasileira.
A mobilização que se faz agora em Londrina reivindicando do governo do Estado um maior efetivo das polícias civil e militar, a conclusão da Cadeia Pública e um melhor aparelhamento do sistema de segurança , constitui uma consequência natural. A segurança representa atualmente um dos mais sérios problemas para o cidadão, em Londrina como em qualquer parte do Brasil. Há outros desafios igualmente críticos, sem dúvida, como os do desemprego, da precária situação da saúde e da educação. É possível perceber, porém, que tais questões, embora dependam em grande parte de ações e medidas oficiais, também encontram amparo na atividade privada. Algumas alterações legais podem estimular a ação empresarial, aumentando a oferta de trabalho. Igualmente é possível conseguir ações privadas e comunitárias para enfrentar os desafios da saúde e da educação. Até mesmo no que tange a obras públicas, o setor privado pode suprir a falta da atividade oficial. Mas no campo da segurança, o Estado é o único responsável.
E os brasileiros têm total direito de exigir de seus governantes que garantam segurança sob todos os aspectos. Não há desculpas aceitáveis para falhas no particular. A grande alegação da falta de recursos não se sustenta. Trata-se mais do que de uma prioridade, de uma obrigação que não pode ser repassada, inclusive conforme o que está expresso na Constituição. A população se encontra desamparada e sem qualquer meio para enfrentar a violência, para se defender do crime, para garantir sua própria segurança. O que Londrina resolveu exigir agora, peremptoriamente, é o que todos os paranaenses e brasileiros reclamam com razão: é vital que os governos estaduais revejam seus planejamentos e garantam à população condições para poder viver sem medo.





