A notícia de que o déficit em nossa balança comercial, neste semestre, foi de 15 bilhões, criou um clima de desconforto e uma certa apreensão pelos rumos do Plano Real. Os pessimistas começam a agourar o pior, as oposições fazem a festa, e os que vivem do ‘‘milagre’’ e acreditam que ele venha de Brasília caem em desânimo, amaldiçoando tudo, principalmente o Governo. E acham que o Brasil não tem salvação.
Em verdade vivemos - por justificadas razões mas também por comodismo - em constante dependência do poder oficial, representado por um sistema constituído de políticos (bom que o fosse de filósofos, como queria Platão a seu tempo, ou de sábios, como querem os profetas do iluminismo), mas o Brasil haverá de ser edificado não pelos políticos e sim pelos comuns brasileiros. Se não com o Governo a favor, será apesar dele. E como isto vai acontecer? Pela melhoria de cada um de nós mesmos.
É repetitivo dizer que não teremos governantes melhores se o conjunto da sociedade também não for buscando melhorar-se.
Quem de nós já se acercou do parlamentar que elegeu e lhe fez cobranças? Por que não lhe preparamos magníficas recepções semanais nos aeroportos, ou à porta de sua residência, e lhe perguntamos (cercando-o para que não possa fugir) por que não aprova as reformas? E saber dele por que vem tanto passear em casa se sua missão é comparecer às sessões do Parlamento, onde tramitam os projetos das reformas tão urgentes reclamadas pela nação?
Cada cidadão que faça bem feita a sua parte, e tudo o mais irá se consertando. Porque não há outro caminho. Se os governantes falham, eles são oriundos do mesmo tecido social, refletem o pouco espírito público e o pouco patriotismo da própria sociedade.
Vivemos ainda um momento de expectativa sobre a consolidação do Plano Real, mas é verdade que já domamos a fúria da inflação. Já vimos que isto é possível, embora três anos atrás nenhum brasileiro acreditasse. A maioria dos empresários já convive sem ela mas ainda insiste na especulação financeira, representada pelos juros altos (de duas a três vezes acima da inflação) embutidos nos planos de vendas a prazo. A insistência em nos vender dessa forma e a recusa em conceder descontos nos pagamentos à vista é bem um indicativo de velhacaria e de que a doença da especulação financeira ainda não foi curada. Não se pode qualificar esses lojistas de patriotas - em geral os mais lamurientos e os mais insistentes pregadores do apocalipse - e eles sabem que estão colaborando para a volta da inflação. Os mais espertos contentam-se em lucrar menos por unidade vendida, e assim vendem mais e ganham mais, para fúria da vizinhança, que não se conforma com o êxito deles. Conhece a fórmula, mas insiste nas práticas dos tempos da inflação. E culpa o Governo! Sim, o Governo é muito culpado, mas não só ele.
O consumidor, de sua vez, tem que resistir a essas imposições. A maioria dos comerciantes não está precisando recorrer a empréstimos bancários que justifiquem igualar seus juros aos dos bancos. É pura especulação mesmo!
Nos melhorarmos é assumir essa conscientização, ou seremos iguais aos homens do Governo, aos agiotas, aos corruptos, aos anões do orçamento, aos precatoristas militantes, aos negociadores do Congresso, aos que desviam dinheiro do IPMF da saúde para outras finalidades; seremos iguais a estes que tanto combatemos em nossos ‘‘patrióticos’’ discursos de botequim.
Brasileiro é especialista em falar de crise, e de tanto a mencionar ela acaba vindo!
Nos melhorarmos é dizer não àqueles que nos exploram, que nos ludibriam com propaganda enganosa.
Aqui embaixo, longe da nefasta influência dos gabinetes governamentais, também cometemos nossos delitos de lesa-pátria, nossas investidas contra o sucesso do Plano Real, e se o presidente FHC também revela suas fraquezas e concessões não se pode afirmar que não seja um governante honesto e que não esteja fazendo força. Bom que o Brasil tenha um FHC. Se não está ótimo com ele, tanto pior se fosse outro, destes já conhecidos...
Como ensinam os americanos, não pergunte o que a nação pode fazer por você, mas o que você pode fazer por ela.
Não podemos justificar nossos hábitos, muitas vezes pouco patrióticos, pelos impatriotismos governamentais.
Se cada cidadão pautar-se por atitudes corretas - em sua casa, em seu escritório, em sua clínica, em sua loja, em sua fábrica, em seu negócio enfim - a pátria já estará salva.
Sem a contrapartida dos atos condenáveis, manifestos ou ocultos emanados do meio, nenhum Governo corrompido terá condições de sobrevivência, nem de existir.
Nós sabemos que nas esferas do poder - o Executivo, o Legislativo e o Judiciário - as coisas andam muito mal, com todas as consequências daí decorrentes. Mas se o exemplo não começar aqui por nós, que somos a esmagadora maioria, será em vão esperar milagres de Brasília, porque não chegam milagres de onde não existem santos.
A conduta e a moral do cidadão produzirão governantes de conduta e de moral idênticas.

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