Pela preservação das instituições
A denúncia de que o desembargador Dirceu de Almeida Soares, do Paraná, intercedia em favor de advogados e de seus clientes, pressionando juízes a lhes conceder sentenças favoráveis, a reverter outras ou a retardar decisões, intensifica o clima de perplexidade que toma conta da população, mas robustece as instituções. A acusação é feita por sete juízes federais do Estado, em depoimentos sigilosos que prestaram em setembro do ano passado, na Procuradoria da República em Curitiba, e que agora chegam ao conhecimento público. O processo tramita em segredo de Justiça e envolve também advogados. Em seus depoimentos os denunciantes relatam situações em que se sentiram pressionados e constrangidos pelo desembargador, que, segundo declararam, insistia que os juízes dissessem aos advogados que ele (desembargador) havia feito tal solicitação. Em meio ao mar de lama que assola a República, esta nova denúncia contestada pelo acusado á obscurece ainda mais o clima já denso da atmosfera nacional, porque está sendo divulgado também pela grande imprensa. Um dos relatos afirma que aquela suprema autoridade chegou a entregar, a uma juíza, uma sentença já redigida. Outro depoimento é de um juiz que recebeu recado do desembargador para que não decidisse um determinado processo sem falar com ele, e que depois ligou pedindo-lhe para receber um advogado: É muito amigo meu, atenda-o. Em outro pedido, segundo os termos das declarações feitas, o desembargador pretendia reverter a decisão da Justiça em caso de quebra do sigilo bancário de uma figura envolvida com o escândalo do Banestado. Chegou a ser insistente em outro caso, e sem rodeios, conforme declarou um dos depoentes. Os juízes não cederam a essas pressões e resolveram denunciar o fato. O desembargador atribui a acusação a obra de inimigos, e nega qualquer irregularidade, afirmando que pedidos semelhantes a juízes são casos normais e que os denunciantes relataram da maneira que os mandaram relatar e que está sendo vítima de uma armação. A verdade é que, independente das conclusões que cheguem as investigações, casos como este semeiam uma corrente de descrença do povo nas autoridades. Sobram arranhões para a imagem das instituições, mas estas não respondem pelos envolvimentos individuais em seu meio e devem ser preservadas. O corajoso depoimento dos juízes está, justamente, na consonância dessa preservação a defesa das instituições, que dessa forma se robustecem e este é o aspecto positivo que precisa ser ressaltado neste episódio.





