Pela paz ou contra guerras?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2003
Abraham Shapiro 
No Dia Internacional de Mobilização Contra a Guerra, em 15 de fevereiro, o mundo uniu-se em manifestações e protestos. Como pacifista, pensava eu, maravilha! Uma corrente mundial pela paz!
Mas não foi o que vimos acontecer. Através do mundo, inclusive no Brasil, mais do que conclamação à paz, vimos e ouvimos manifestações de ódio contra Bush e Israel, principalmente.
Não tenho autorização nem pretendo defender qualquer grupo, personagem ou povo. Mas como ser humano, tenho, por coerência, o dever de defender a paz. Paz não significa ausência de guerra e sim do ódio e da intolerância. Ecoam em meus ouvidos mais palavras de ódio das manifestações do que clamores por paz e solução dos conflitos. Sim, porque em guerra o mundo já vive. Guerras locais, acaloradas guerras frias, guerras em nome de Deus (?!), guerras da e na mídia, conflitos armados ou não todos com um imenso desrespeito à vida e à dignidade humana.
Enquanto pessoas continuarem morrendo de fome, em condições desumanas, devido a ódio gratuito e, muitas vezes, ''atávico'', enquanto não perderem a necessidade de dar a última palavra e/ou o último tiro, não puderem aceitar o outro, com a consciência de que há lugar para todos continuaremos repetindo o roteiro bíblico arquetípico de Caim e Abel: não bastaria metade do mundo inteiro para cada um? É impossível conviver com as diferenças? Por que não podemos nos aceitar como irmãos, membros da mesma família humana?
Há espaço para todos ainda. Não precisamos gostar do outro ou concordarmos incondicionalmente, para conviver em paz! Enquanto continuarmos presos a um sectarismo inócuo de ''esquerda ou direita'', morrendo em nome de Deus (seja como for denominado), ''invocando'' assassinos históricos de forma deturpada e agressiva (como chamar judeus de nazistas), invertendo a sintaxe na mídia de forma tendenciosa (como chamar terrorista suicida de mais um jovem morto), pregando a morte e conclamando ao ódio, vivendo em constante estado de alerta e de defesa, subindo em um ônibus sem saber se chegaremos vivos ao fim da viagem, seja por violência urbana ou terrorismo não poderemos ter a isenção nem a calma necessárias para avaliarmos os reais problemas, priorizá-los e, acima de tudo: buscarmos soluções reais e efetivas.
Quer queiramos ou não, moramos na mesma casa ainda. Nosso planeta, nosso lar, é quem mais vem sofrendo e reagindo às agressões de seus ''inquilinos'' nós, seres humanos, ainda.
A paz não é mais um sonho utópico, um clamor demagógico ou uma solução temporária é nossa única chance de sobrevivência! E enquanto continuarmos fazendo manifestações pela paz com ódio nos corações, estaremos assinando, por omissão ou assumidamente, nosso próprio decreto de morte o atestado de óbito do ser humano.
ABRAHAM SHAPIRO estudou no Seminário Rabínico Wiznit de Nova York e é engenheiro industrial e consultor empresarial em Londrina


