Pela força do grito
As simplificações são uma das grandes inimigas da boa comunicação. Não me refiro ao falar simples que é essencial para quem quer se fazer entendido mas às reduções de temas complexos a esquemas. Torno-me mais claro através de um exemplo. Recente. Durante o consternador debate entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, Paulo Maluf acusou Marta Suplicy de querer pôr bandidos na rua, ao referir-se a um projeto de lei da deputada que visava reduzir as penas dos condenados a prisão que se dispuzessem a estudar. Claro que a idéia de Marta era muito outra e tenho a impressão de que a maioria dos espectadores não se deixou enganar pela simplificação. Ou será que deixou...?
É a traiçoeira simplicidade da proposta que faz com que a maioria do povo brasileiro, hoje, seja favorável à pena de morte. É que os exploradores dessa consternadora tese (há muito de que se consternar, atualmente) forçam as situações para que pareça existir uma relação de causa e efeito entre matar os bandidos = redução da criminalidade. Claro que para matar esses bandidos, é preciso prendê-los primeiro e processá-los. E quem vai efetuas as prisões é a polícia, essa que está aí. Quem vai enforcar ou guilhotinar os infortunados condenados é o Poder Judiciário, esse que está aí... Já percebeu, não é?
Nessa linha, recebi um convite, por e-mail, para assinar um abaixo-assinado cuja finalidade era impedir uma editora do Sul do Brasil de participar de uma feira de livros em Porto Alegre porque os livros editados pela empresa defendiam idéias nazistas. Recusei-me, dando um reply ao meu amigo, tentando explicar que a democracia é o sistema em que as outras pessoas têm o direito de ter idéias diferentes das nossas (e de divulgá-las). Se fosse um sistema em que só nós temos liberdade de expor as nossas idéias, porque são boas e os que pensam idéias más sejam impedidos de fazê-lo torna-se justamente o sistema que gerou coisas como perseguição dos judeus.
Ao que me respondeu o amigo: Na minha democracia não cabe nem nunca caberá o ideário do nazi-fascismo. Comentei o assunto com alguns amigos eletrônicos, que me apoiaram (os discordantes, talvez, não se tenham manifestado). C.S., por exemplo, achou que a intolerância tem efeito devastador sobre as relações humanas. Nada mais salutar à paz entre os homens observou do que a livre expressão de idéias. Até porque, expressas livremente, as teses obtusas ficam expostas à crítica e à desmoralização. G.L. ficou bravo: Paixão arcaica e preconceituosa. Na minha democracia só as minhas idéias... Nosso amigo combate o nazi-fascimo com uma ideologia nazi-fascista.
H.M. havia recebido iguais convites, que igualmente recusou, concordando comigo. Acho obscurantista a manifestação proibitiva, escreveu. Tenho o livro Minha Luta e, sem perfilhar sua tese, gostei de poder lê-lo e comentá-lo, coisa que seria impossível a prevalecerem tais interditos. R.C. citou Roberto Duailibi, de quem ouviu que não existe meia censura, como não existe meia gravidez. A base da democracia é a censura zero, que fortalece os mecanismos da socidade, seu sistema imunológico, por assim dizer. Repudio qualquer mecanismo de restrição à liberdade. Respeito e admiro o marxismo e qualquer tipo de socialismo. Até, taticamente os apoio e voto neles, em certos momentos de luta política. E reflete: Meu ideal é a sociedade anárquica, onde a liberdade de cidadãos maduros e responsáveis fará a felicidade geral. Minha postura, de inspiração budista, tem como valor fundamental, na praxis política, o respeito. Muito parecido com seu pensamento.
Os comentários dos amigos deixaram-me um pouco mais confiante numa sociedade em que as verdades não se caracterizem pela força do grito e a simplicidade da aparência. Embora, às vezes, tais recursos resultem em aumentos de vendas de jornais e revistas, de audiências para programas do rádio e da TV e de votos, nas eleições, pode-se concluir que embora os iludidos sejam muitos, não são todos. E, talvez, nem se constituam em maioria.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro





