Pedofilia, igreja e sociedade
Pedofilia! Eis a grande manchete da mídia em geral nos últimos dias. De forma não-comum, infelizmente, associado ao comportamento de alguns padres católicos, embora nem de longe seja um mal inerente e exclusivo dos mesmos. Uma coisa é certa: não se pode fazer vistas grossas a uma prática tão perversa e hedionda, e os responsáveis, sejam quem for, têm que ser denunciados, julgados e punidos sob a forma da lei. A Igreja nunca aprovou tal prática e, nos casos surgidos, no desejo de acertar e se utilizando de perdão e misericórdia, na crença da transformação humana e por isso uma nova chance, se utilizou de fórmulas que deram errado e por isso está pagando caro ante às denúncias divulgadas.
O estarrecimento e a indignação que se manifestam diante de cada caso que surge, não devem fazer com que se perca de vista o epicentro da questão. É um tema que merece reflexão e debate profundos não só para a Igreja como para a sociedade em geral, visto que se trata, acima de tudo, duma anomalia humana. Os casos vindos a público são apenas a ponta de um grande iceberg, latente numa sociedade permeada pela promiscuidade que, de certa forma, vive uma crise de valores.
A pedofilia é muito mais comum do que se imagina e não está tão distante de cada cidadão quanto se possa pensar: em três anos de sacerdócio já me deparei com menores abusados por tios, padrastos e até avós. Não raro se encontram responsáveis por creches e membros de conselhos tutelares que conhecem casos e casos de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, dentro e fora do lar. Recentemente foi muito noticiado o caso do médico Eugênio Chipkevitch, em São Paulo, contra o qual existem pelo menos 10 queixas por cenas de abuso sexual contra adolescentes, gravadas e protagonizadas por ele mesmo em seu consultório. Infelizmente muitíssimos casos não vêm a público, porque a repressão e o medo da denúncia são grandes, sobretudo se forem casos que envolvam familiares.
Deve-se cuidar com a superficialidade e a hipocrisia que podem gerar análises sectárias e oportunistas, de quem se aproveita para denegrir a imagem da Igreja, dos padres e atacar o celibato. Que o celibato possa ou deva ser discutido isto é um ponto, porém, seria leviano afirmar que a pedofilia é fruto da imposição celibatária para o clero. Conforme o Frei Antonio Moser, renomado pesquisador e doutor em Teologia Moral, mesmo mantidas as proporções numéricas, indiscutivelmente há mais não-celibatários pedófilos do que celibatários pedófilos. Erra quem afirma que o casamento é a solução para os problemas afetivos-sexuais de uma pessoa. Isto a realidade de frustração e infelicidade de muitos casais o atesta.
Da Igreja fazem parte santos e pecadores. Ninguém é católico, evangélico, espírita ou ateu como anjo. A missão da Igreja é a mesma de Jesus, e Ele não veio para os anjos. A Igreja visa atrair os melhores e os piores, visto que todos são matéria-prima de conversão e destinatários da salvação, e não está isenta de errar e de acreditar em quem não devia. Até Jesus se decepcionou. De 12 apóstolos escolhidos a dedo, por Ele mesmo, um o traiu, e nem por isso os 11 que sobraram, juntamente com o Mestre, foram ridicularizados e desacreditados.
Por fim, convém tomar este tema e relacioná-lo com alguns meios de comunicação social, sobretudo a televisão. A mesma TV que denuncia a pedofilia e outros males com espanto e assombro, é a que produz e impõe nos lares Malhação, que tira a inocência de crianças e ridiculariza adolescentes que não praticam sexo; produz novelas que incitam à infidelidade conjugal; que dissemina a promiscuidade dos Big Brothers e da Casa dos Artistas; que reproduz filmes diversos com cenas de morte, estupro, sexo, ódio, facadas, pontapés, pancadarias e explosões, imagens que nem todos conseguem decodificar, e por isso imitam. Sem contar os noticiários que dão grande destaque ao errado, acentuam o mal em proporção muito maior do que o bem quando é notícia. O erro ocupa mais tempo do que o acerto.
Quem conhece o padre Júlio Lancelotti, em São Paulo, que fundou e mantém duas Casa Vida, que abriga crianças aidéticas órfãs ou abandonadas? Quem já ouviu falar da Toca de Assis, instituição religiosa católica fundada em Campinas, que tem como carisma o admirável trabalho de amparo, alimentação e cuidados médicos a mendigos e moradores de rua? E assim há muitíssimas outras obras sociais e de caridade que pouca gente conhece e não se vê interesse em divulgá-las. Infelizmente, o bem parece exceção.
Daí que, de certa forma, muito do que a TV denuncia é fruto e cumplicidade do que anuncia e produz em nome dos pontos do Ibope e em detrimento de valores fundamentais que devem reger a vida humana.
ROMÃO ANTONIO MARTINI MARTINS é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Londrina





