Grandes contingentes de eleitores trocam o voto por benefícios, o que significa ausência de formação política, e os políticos exercem mal a função, o que demonstra ausência de responsabilidade pública. Duas mazelas do Brasil ainda subdesenvolvido nessas questões que envolvem o exercício da cidadania. Reportagem publicada ontem neste jornal mostra um fato já corriqueiro: o dos eleitores-pedintes lotando os corredores da Câmara Municipal, em Londrina. E assim é em todo o País. A legislação eleitoral proíbe favorecimento ao eleitor pelo candidato, em troca do voto, mas o problema não é um simples negócio entre partes e sim necessidade de gente carente, porque a miséria social é muita. O fato de os parlamentares, em todas as esferas, trabalharem pouco e receberem polpudo rendimento, em forma de salário, verbas de representação e outros ganhos não confessados, favorece a corrida dos pedintes na direção deles. Conhecedores das carências de suas cidades e regiões, os políticos sabem o que os aguarda ao se lançarem candidatos e quando eleitos. Não têm, portanto, que se queixar. Se a lei impede, a prática demonstra que não há como evitar o assédio do povo necessitado ao concorrente a cargo eletivo. Vereadores, deputados, senadores, prefeitos, secretários, governadores e até o presidente da República, vivem sob constante pressão, e não apenas de pessoas humildes que pedem coisas básicas, mas gente ilustre que faz grandes mendicâncias. E é aí onde os favorecimentos abundam. Contra estes nenhuma lei funciona, até porque é no corpo do próprio sistema e no âmbito de seus relacionamentos políticos, e outros, que as grandes barganhas acontecem. Cuidassem, os parlamentares e governantes, de ocupar-se da solução dos grandes problemas nacionais até onde lhes compete, por via da reformulação de leis e a tomada de outras providências haveria menos desemprego, menos miséria, mais educação e conscientização política por parte das comunidades, e assim menos carentes e menos pedintes à porta dos corredores e gabinetes governamentais. Se é certo que o Brasil haverá de ser construído pelos cidadãos, a contribuição dos parlamentares e administradores públicos é fundamental quando se trata de reformar leis velhas, criar leis novas, adequar sistemas e bem gerenciar a máquina pública, de forma a que não seja um peso para a nação mas uma alavanca para a promoção do desenvolvimento e da melhoria do padrão social dos brasileiros. Se os cidadãos não obtêm dos homens públicos os benefícios de forma global, acabarão indo pedir individualmente. Há que melhorar a qualidade do meio, e esta é tarefa que cabe à própria sociedade e aos parlamentares e administradores públicos, porque todos formam um só corpo social e são interdependentes. Não serão leis que irão politizar e disciplinar o comportamento do povo carente, mas a sua independência econômica, que é a mãe de todas as soluções e a que redicionará o povo para as auto-educação política.

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