Pedágio, negócio de uma mão só
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sábado, 01 de dezembro de 2001
Paulo Muniz 
Mais uma vez o governo do Paraná não perguntou à sociedade se ela concorda, se está disposta e se tem condições de pagar, e impôs um aumento de quase 10% nas tarifas do pedágio das estradas. O índice é acima da inflação do ano (7%), apontada pelo INPC-IBGE. Comparado com a tarifa inicial, de 1998, representa uma variação de 44%, mais de 100% sobre a inflação acumulada no período (21,6%). Que negócio no mundo foi tão bom assim? Os meios de produção, que são aqueles que realmente proporcionam a riqueza do País, no campo e na cidade, e não vivem da exploração das pessoas, desconhecem tremenda correção.
O novo aumento confirma o privilégio com que o governo distingue as concessionárias, sustentadas no injusto sistema criado de forma esperta e concedido de mão beijada. O povo construiu as estradas, foi espoliado, e agora é o grande explorado. Os exploradores de trecho transformaram o usuário em refém de ouro. Que paga ou não passa. Autoritariamente, fecharam com paus e ferros as estradas secundárias e patrocinaram até uma lei segundo a qual quem tentar passar sem pagar será preso. Eles controlam o direito de ir-e-vir do cidadão. Como em outros casos, a autoridade viaja serenamente pelas águas, sem se importar com o clamor das margens.
Hoje se sabe que as concessionárias nem tinham dinheiro para o negócio, mas mesmo assim não se apertaram: tomaram empréstimos bancários para construir rapidamente as praças de exploração e iniciar a coleta fácil e sem suor do dinheiro, numa transação sem erros. E quem paga os juros dos empréstimos são os usuários, porque do couro sai a correia. Não se paga apenas para passar.
A necessária e prometida modernização, com duplicação das estradas, está se arrastando. As estradas continuam perigosas, mas as empresas executam apenas um lento cronograma de pseudomelhorias, baseado em pequenas ações de enfeite estampadas em placas. A duplicação existe apenas no papel. A pista simples simboliza a desfaçatez. Eles não duplicam porque o negócio deles só tem uma mão.
E, na hora do aumento, como se não bastasse todo o conjunto de injustiças, as empresas se garantem por meio de um pacto noturno com o governo-padrinho, fingem que usam o IPC como referencial, mas adotam uma cesta nebulosa e mágica de parâmetros baseados no dólar. Isso significa uma correção injusta e incompatível com a realidade econômica brasileira. Usar dólar para corrigir preços e tarifas, no Brasil, é um acinte. Quem ganha em real e nem tem aumento e paga em dólar, quebra.
Eles são semideuses. Até hoje não aceitaram a criação da agência reguladora do setor, uma reivindicação justa da Associação dos Usuários de Rodovias do Paraná, entidade pioneira criada em Londrina. Certamente eles temem a agência, porque ela vai representar a voz do cidadão que paga o que eles ganham. A agência não é um bom negócio para eles.
O aumento do pedágio praticamente inviabiliza os meios de produção e a população em geral, atacados por quem lhes dá vida; agredidos por quem lhes sustenta; desrespeitados em seus direitos.
PAULO MUNIZ é empresário em Londrina, presidente da Associação dos Abatedouros Avícolas do Paraná (Avipar) e da Associação dos Usuários de Rodovias do Paraná


