Pedágio acenando para muito transtorno
Os interditos proibitórios da Justiça e a intervenção da Polícia Federal não foram suficientes para impedir a ocupação de praças do pedágio no Paraná primeiro por manifestantes liderados pelo Movimento dos Usuários de Rodovias, e agora (mais uma vez) pelo Movimento dos Sem-Terra. No último caso não foi apenas ocupação, mas depredação. Enquanto invasões-relâmpago aconteciam, os usuários passaram pelas cancelas sem pagar, como era quando não existia essa cobrança. Os protestos, com toda a certeza, irão eclodir sempre, e este é um problema com o qual as concessionárias, os futuros governos (contrários ou favoráveis ao pedágio) e a Justiça irão conviver. Porque o sistema implantado é perverso pela sua natureza e não encontra apoio dos usuários, na grande maioria. A razão é o absurdo valor das tarifas, que se está previsto nos contratos assinados por Jaime Lerner não impede que as forças de reação se manifestem. O Governo de Roberto Requião, desde a primeira hora contrário ao pedágio, pode até fazer ouvidos moucos ao barulho dos manifestantes e não acionar mecanismos de repressão, mas independente dessa postura há uma imperante indignação dos usuários, especialmente os que utilizam as rodovias para o trabalho, como os transportadores, os viajantes comerciais e tantos outros profissionais. Porque, enquanto em países como os Estados Unidos as tarifas são de fração de dólar, aqui a cobrança se afigura muito elevada. Tudo previsto em itens contratuais, mas tal não invalida essa sangria. Denúncias de inconstitucionalidade do modelo implantado têm sido levantadas por eminentes estudiosos. Não há como defender esse sistema de exceção, que toca fundo no bolso de quem trafega pelas estradas pedagiadas. Caminhoneiros viram seu lucro esvair-se nas praças do pedágio, e restaurantes das margens das rodovias declararam o encerramento de atividades, sob a alegação de que muitos motoristas deixavam de alimentar-se para redução de custos. Se as estradas pedagiadas oferecem mais segurança, isto é o mínimo que as concessionárias devem fazer ante as somas milionárias que auferem. Nada que as verbas afins, do Governo, não poderiam realizar e se isto não acontecia a contento, era por falta de cobrança e de manifestações públicas de protesto. Se alguém acredita que haverá paz nas praças do pedágio, equivoca-se. Porque, se os protestos que acontecem são impulsionados por movimentos como o MST cujas ações violentas constituem uma marca registrada e agora por esse novo, denominado MURB, é porque os usuários não são organizados politicamente para isso e lhes faltam lideranças e os conhecimentos de estratégia. Nada irrompe sem que haja uma efervescência emergindo das massas. Em países como a Argentina e a Bolívia os protestos chegam a consequências extremas, e isto não se deseja que venha a ocorrer no Brasil. Mas não se eliminará consequências se as afrontas ao povo não forem extirpadas. Abusos geram reações na mesma intensidade. As elevadas tarifas do pedágio converteram-se em algo violento, que os paranaenses rejeitam. Faltam ainda 16 anos para o fim regulamentar do pedágio. Serão 16 anos de inevitáveis transtornos.





