A Folha de Londrina, que no ano passado soprou 70 velinhas, foi um naco de minha vida que maturou e consolidou o vírus do jornalismo para até meu último minuto, é uma linha emblemática que distinguiu meu viver em quase meio século.

Jornalismo, esta magia não começou para mim, como pode parecer, na Folha de Londrina.

Teve início, isso sim, no Diário de Londrina, no distante 1970, em uma sede modesta, apertada, abafada. Sua impressão a chumbo quente marcou meu coração como se marca boi no pasto. Dele, no ano seguinte, passei ao colorido, semanal e muito bem feito Novo Jornal, outro rebuliço no coração e na profissão – nunca mais deixaria de ser jornalista.

Subi de dois em dois seus degraus para ir à Redação da Folha de Londrina em 1973, convidado que fora, e é difícil ela desgrudar de mim até hoje

. Vivemos, esta é a palavra. Vivemos incríveis e belas experiências, dentro e fora de seu prédio, no coração da vida londrinense, nas sucursais, nos botecos próximos e distantes, em reportagens especiais, em reportagens nada especiais, nos campos de futebol, nos altos cleros e nos escuros da cidade. Vivemos dia e noite.

O jornal era muito mais para aquele bando, aquele não, todos os bandos com os quais convivi sob sua marca e cujos nomes de componentes são impagáveis. Dos mais velhos aos mais novos, dos mais ao menos preparados...

Ficou um pouco de nós por ali, dentro de todos seus espaços, tenho certeza. De nosso trabalho, às vezes desgastante, de nossa farra, de nossa amizade, de nossa solidariedade, dos muitos prêmios que ganhamos, do carinho que tínhamos pelos homens, mulheres e máquinas que produziam um jornal que dava orgulho por seu profissionalismo, sua eterna busca e seu apego à democracia. Mesmo em períodos mais brutos de nossa história.

Depois, dos mais simples aos mais sofisticados jornais, dos mais brincalhões aos mais sérios, dos mais ideológicos aos mais descompromissados, onde trabalhei, em Londrina ou em outras cidades, todos tiveram um grude inconfundível em minha vida – a cor ou as cores da impressora. Do Bom Domingo ao Panorama, do Movimento ao O Estado de S. Paulo, do Bom Viver à Gazeta Mercantil, com intervalos para rádio Alvorada, TVs Tropical e Paranaense, revistas Pois é e Isto é, onde mais?, enfim a alma sempre foi uma só: jornalismo.

A mim sempre produzia um sentimento de orgulho, de trabalho responsável e de descobertas de novos desafios por todas as editorias que passei, por onde andei. Se assim não fosse, não valeria a pena.

Por isso, a convivência com plataformas diferenciadas em comunicação não me assusta, a eternidade da profissão se equilibra em seu próprio equilíbrio, em sua ponderação, em suas escolhas. Faz parte deste ser o jornalismo. Não fazem parte, nunca fizeram, a falta de liberdade, o sufoco à criação e à busca de vida.

Não sei qual a manchete que daria à edição diária de minha saudosa “Folha de Londrina”. Mas, sem resvalar para a declaração pura e simples de amor, ao meio século nesta lida, fico com esta: “Um pedaço de mim”.

Nilson Monteiro (jornalista)- Curitiba

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