Sob vara judicial, foram retirados ou outdoors do bebê com o pênis ereto, em Curitiba. A mensagem era para comemorar o primeiro ano de vida de uma agência de publicidade e celebrar seu ‘‘entusiasmo’’ pelo trabalho. Foi o que disseram os sócios da agência. Puxa vida! Que coincidência: acabaram conhecidos em toda parte. O out door, embora espalhado pela Capital, foi primeira página de jornais regionais durante vários dias. Até o Gilberto Dimenstein, em seu comentário feito na Rádio CBN, em rede nacional, falou no assunto - teceu crítica dizendo que nunca vira absurdo parecido, pelo menos nos lugares do mundo onde esteve, e que era surpreendente que a conservadora Curitiba admitisse aquilo. Evidentemente, Curitiba não admitiu. Choveram telefonemas para a Delegacia de Ordem Social, que indicou os responsáveis pela ‘‘comemoração’’, e o Poder Judiciário, entendendo que fora violado o Estatuto da Criança e do Adolescente, determinou a retirada dos out doors.
Agora anotem as lições do episódio. Primeiro, em meio a tantas manifestações, ora de repúdio, ora de apreço, algumas merecem. A de uma juíza, por exemplo, que achava interessante os cidadãos reagirem, mas que, além disso, havia ‘‘muita coisa triste ocorrendo - crianças cheirando cola e passando frio - e as pessoas não se interessam’’ ( Folha, dia 26). Nessa mesma esteira de comentário, teve o do jornalista que também achou reprovável usar daquele tipo de fotografia, porém alegou que a televisão faz coisas piores. Quer dizer, declarações assim, de repente podem levar alguém a concluir que se existem coisas piores acontecendo com crianças, para que se incomodar com um out door?
Claro que as pessoas também se interessam pelas crianças que cheiram cola e passam frio. Nunca se viu quem, em sã consciência, fosse a favor dessas privações, sujeições, explorações, infligidas à infância. Acontece que há desequilíbrios sociais antigos, em relação aos quais muito já se denunciou, muito já se falou, muito já se escreveu. E há grupos de cidadãos que se organizaram, e vêm se organizando ao longo do tempo, apresentando sua solidariedade à parceria com o poder público para fazer frente a tamanhas injustiças. Existem programas de governo voltados especificamente para resolver, ou tentar resolver, essa crise. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente determinou a ação do poder público no sentido de administrar o problema, inclusive criando os chamados conselhos tutelares, que contam com a participação da sociedade civil, para encaminhar as crianças aos órgãos de assistência. Tudo isso com a imprensa volta e meia divulgando reportagens e atualizando a população a respeito dos índices de assistência e de desassistência. Há reação, sim, da sociedade. Apenas que as providências sobre os casos obedecam os processos diferentes. Os tais out doors ficaram onze dias em exposição antes de serem defenestrados, enquanto há crianças que podem ficar marginalizadas por onze anos devido a contingências que variam da má-vontade política à limitação da estrutura estatal.
Em segundo lugar, merece destaque a conceituação feita pelos donos da referida agência. Eles insistem em afirmar que o out door era apenas uma ‘‘peça publicitária’’. O criador da campanha de aniversário da empresa chegou a declarar que eles têm que dar uma resposta aos seus clientes ‘‘e não ao povo em geral’’. Interessantíssima essa visão. O povo em geral que feche os olhos se não quiser ver os out doors, porque, afinal de contas, a mensagem ali é assunto provado e ninguém tem nada com isso. Se fosse uma campanha de televisão, os contras teriam alternativa de mudar de canal ou desligar o televisor. Como se faz para desligar um out door que está fora de contexto da moral média dos cidadãos?
Felizmente, expedientes de publicidade radical (tipo nudez com melancia no pescoço) não são uma unanimidade na classe dos publicitários. Ouvi, de alguns, severas críticas a tais procedimentos. Esta é a hora de perguntar se o episódio já foi levado para a universidade, onde os acadêmicos de comunicação social podem analisar e refletir a questão ética, deontológica, em cima de um caso concreto. Se não foi, deve ir, urgentemente. E que a obra de Oliviero Toscani, publicitário da Benetton faça luz a essa pesquisa. Porque, se Toscani segue um propósito filosófico ao colocar, em out doors distribuídos pelo mundo inteiro, a fato de uma negra amamentando um bebê branco, ou de uma criança negra e uma branca sentadas em penicos coloridos, há trabalhos por aí que, como disse o juiz Fernando de Moraes, só demonstram afoiteza por lucro e popularidade.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná em Curitiba

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