No lugar dos livros e cadernos, computadores em sala de aula. Esta é a idéia do projeto ''One Laptop per Child'' (Um Computador por Criança), do norte-americano Nicholas Negroponte - um dos fundadores do Media Lab, o laboratório de multimídia do Massachusetts Institute of Technology (MIT) -, que previa equipamentos no valor de US$ 100 (R$ 175,00) para escolas de todo o mundo. No Brasil, o governo federal abriu licitação para compra de 150 mil computadores que serão usados em um projeto piloto, e a vencedora foi a Positivo Informática, com laptops no valor de R$ 654.

Em entrevista à FOLHA, o presidente da companhia, Hélio Rotenberg, afirmou que o valor de US$ 100 no laptop estudantil é utópico, devido a todo custo de logística e garantia que é embutido no produto. Apesar disso, ele acredita que o Brasil conseguirá atingir a meta de um computador por aluno, mas sem dar previsões. Rotenberg fala ainda sobre inclusão digital no Brasil, ressaltando que, pela primeira vez na história, a compra de computadores superou à de televisores.

É possível oferecer laptops às escolas no valor de US$ 100?
É uma utopia. Este valor ficou como símbolo do projeto do Negroponte, mas não foi alcançado nem por ele. Existem vários fatores que inviabilizam a concepção de um produto de qualidade e que atenda às necessidades mínimas dos estudantes por esse valor. Participamos de uma licitação no Uruguai com oferta mínima de US$ 245, mas com condições totalmente diferentes da do Brasil. Pelas leis brasileiras, a garantia do produto é de três anos, enquanto no Uruguai é de apenas três meses. Além disso, aqui o governo não paga nada adiantado. Você tem de entregar instalado, comprovar que entregou, e aí receber. Tudo isso dá diferença de preço, mas o governo está certo em comprar com três anos de garantia. De que adianta comprar um produto e estragar logo depois? Tem de dar cobertura às escolas para que o projeto não pare.

Como será o impacto destes computadores adquiridos pelo governo nas escolas do País?
Os pilotos feitos com computadores deste tipo e informatização em massa de alunos têm sido muito interessantes. Os alunos se sentem mais incentivados a estudar, pesquisam mais. Até porque muitos deles não podem ter computador em casa, então é um estímulo a mais para ir à escola.

É possível pensar na idéia de um computador por aluno nas escolas?
Estamos no começo, e nada acontece da noite para o dia. O governo brasileiro já avançou muito com o ProInfo, que colocou laboratórios em muitas escolas. Agora com estes 150 mil computadores será feito um piloto, para ver se o resultado na escola é o que o governo espera. Aí ele pretende comprar na casa de milhões, mas não há como precisar quando haverá um computador por aluno.

O que o governo tem feito com relação ao incentivo fiscal para as empresas de informática?
Melhorou muito nos últimos anos. A isenção do PIS/Cofins para computadores de até R$ 4 mil com a ''MP do Bem'' foi um grande divisor de águas para o mercado oficial começar a crescer e o mercado negro diminuir.

Já é possível falar em inclusão digital de fato no Brasil?
Sim, porque o grau de informatização da sociedade hoje é muito maior. Há uma invasão enorme de computadores na classe C brasileira nos últimos três anos. Pela primeira vez, em 2007, foram vendidos mais computadores que televisores no Brasil. É algo inédito. No caso das classes D e E é diferente. São necessárias políticas públicas para fazê-las subir para a classe C, pois a prioridade deles hoje são outras: ter o que comer, onde dormir. Mesmo assim, vender dez milhões de computadores em um ano é muito significativo.

O senhor considera rápido esse avanço dos computadores para o consumidor brasileiro?
Principalmente nos últimos três anos, por várias causas: isenção tributária, entrada do grande varejo, que ofereceu financiamento para a classe C, e a queda do dólar. Isso fez com que o preço, o valor da prestação, caísse muito. Hoje com R$ 40 por mês é possível comprar um computador.

O mesmo avanço também ocorre com a internet?
O grande motivador do uso do computador nas residências é a internet, para fazer pesquisas, rede de relacionamentos. A classe C ainda compra o computador para usar banda estreita, linha discada, mas mesmo assim há um grande progresso.

Falando um pouco sobre a TV Digital. Qual sua avaliação sobre os dois primeiros meses de implantação do sistema? Há uma boa aceitação?
As vendas são menores do que a gente esperava. O grau de aceitação da TV digital é baixo. Houve um ''boom'' inicial, mas agora está muito lento. Acho que as emissoras estão conscientes disso e começaram a propagandear o sistema. Acho que as pessoas não entenderam ainda o potencial da TV Digital, e por isso não houve uma venda tão grande.

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