PÉ NA COVA - Dez formas de matar uma empresa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Cláudia Palaci<br>Equipe da FOLHA 
Bastam dez atos para se matar uma empresa sem dó nem piedade. O empresário José Kantek aprendeu esta lição em muitos anos como executivo de grandes empresas, inclusive multinacionais. Consultor em recursos humanos e mestre em ciências da administração, ele promove palestras no melhor estilo ''pronto-socorro'', apontando soluções para ''doenças'' que, se não cuidadas a tempo, levam qualquer empreendimento à morte, independente do tamanho. Em entrevista à FOLHA, Kantek contou como manter a saúde empresarial.
O senhor pensa na empresa como um ser vivo. Qual o raciocínio desta premissa?
Uma empresa tem prazo de vida e há maneiras de se prolongar ou estreitar essa data de validade. Podemos cuidar da saúde e da longevidade destes organismos tão sensíveis.
Como a arrogância pode contribuir para o fechamento das empresas?
Ninguém é uma ilha. Sempre há uma equipe junto contigo. O arrogante tira o oxigênio da empresa e não consegue enxergar as potencialidades de cada um. O executivo precisa focar nas habilidades. Com o computador, saber fazer conta já não é mais especial, o importante é saber lidar com o grupo e conviver com adversidades. O comandante é aquele que lidera, inspira os funcionários; tira deles o que há de melhor. Chefe que manda, sem estratégias ou trato, não pode existir mais.
Quais as habilidades mais valorizadas?
São seis novas habilidades: designer - o produto/serviço precisa despertar sensações especiais, sair da mesmice. História - acrescentá-la em tudo que faz. Seduza ao contar histórias, sua empresa está criando algo bom para o consumidor. Sinfonia - isto quer dizer não restringir-se ao foco, ter a capacidade de juntar pedacinhos. Empatia - é colocar-se com o outro. Não restinger-se à lógica. Lúdico - não ser cara amarrada. Há pessoas que acreditam que manter o semblante fechado é sinônimo de seriedade. A postura alegre não denota irresponsabilidade. Sentido - dar expressão a tudo que é feito.
Sugar funcionários e fornecedores vem em segundo lugar no seu ranking. Não seria tirar o melhor de cada um?
Não. Sugar e não repor é destrutivo. O bom empresário foca-se no jogo do ganha-ganha. Ao tentar tirar vantagens na base da exploração, a consequência será fazer gol contra.
Por que há empresas quebradas e patrões ricos?
Porque eles não investiram na empresa. Como manter a saúde financeira de um local, sem torná-lo mais moderno, ágil e eficiente? O dono segura todo o dinheiro e a empresa empobrece, sucateada por falta de novidade, como tecnologia.
Há como perceber que tudo está indo ''pelo ralo''?
É importante dar atenção aos sinais. A empresa pode estar gritando por socorro e você nem perceber. Identificar sinais é estar antenado aos cenários condinzentes aos ramo empresarial. Aprenda a pensar o ramo e construir cenários futuros, baseados no presente.
Fechar-se aos conselhos também pode ser fatal...
É um dos maiores tiros no pé. Quem está no topo da pirâmide costuma se achar onipotente. Um grande balisador da saúde de uma empresa seria o retorno dos funcionários e do mercado. Receber conselhos vai desde uma pesquisa de opinião ou serviço de atendimento ao consumidor até ouvir os mais experientes.
Transformar em trabalho aquilo que se gosta pode ser uma combinação destrutiva?
Depende. Quando produz e vende um produto que, além de você, o mercado também aprova, é positivo. A cabeça do consumidor que deve gerir os negócios. Ter sucesso é identificar uma necessidade do comprador e satisfazê-la com qualidade e boa distribuição.
Empresas familiares correm o risco de falência quando não se abrem para outros profissionais?
A empresa familiar é dona do capital e não do trabalho, que deve ser exercido pelos competentes apenas. Nem sempre o filho do dono quer ser o chefe da empresa. O título não deve ser fechado em uma redoma, a não ser que o profissional em questão, mesmo da família, seja o melhor qualificado. Esta postura faz parte da capacidade que a empresa tem em reinventar seu processo de produção. Isso deve acontecer a cada três anos. Apenas os princípios de caráter e ética são imutáveis.
Quais são os dois últimos atos?
A tecnologia da informação não pode ser uma falácia. Investir nela é lei porque sempre haverá alguém mais rápido que você. A empresa não pode ser vista sem o uso de computadores, sites. Agora, se o empresário seguir à risca os nove atos, o décimo é ir ao enterro. Não há mais o que fazer. No entanto, não se dever perder a esperança. Se ainda há um sopro de vida, há como sarar o paciente. Quando a empresa chega em um patamar alto de desgaste, recuperá-la é mais difícil, com maior demanda financeira e uma capacidade de reinvento colossal.


