Paz na terra - Maria Lucia Victor Barbosa
Paz na terra
Maria Lucia Victor Barbosa
Meu artigo do sábado anterior, intitulado Mea culpa, provocou várias reações. Duas foram publicadas logo em seguida ao que escrevi, na segunda-feira passada, na seção O Leitor Escreve da Folha de Londrina/Folha do Paraná. Uma das cartas me estimulou a continuar a desenvolver o tema relativo ao pedido de perdão, feito pelo papa João Paulo II pelos erros cometidos pela Igreja Católica. A outra, por seu conteúdo bastante exíguo, merece apenas uma menção.
A menção vai para o senhor Aroldo Teixeira de Almeida, professor aposentado de Curitiba. Ele não gostou do último parágrafo do Mea culpa e, pelo tom de sua lacônica missiva meu comentário final sobre a confissão o indispôs com todo o texto. Assim, o sr. Aroldo se eximiu de comentar outras passagens da análise que fiz, limitando-se apenas a me recomendar o estudo urgente do catecismo no capítulo referente ao Sacramento da Penitência, para que eu deixe de escrever bobagens.
Contudo, não seguirei o conselho do professor porque já fiz esta leitura aos sete anos de idade, quando me preparava para minha primeira comunhão e, depois, aos doze anos, antes de ser crismada. Toda a instrução referente à catequese foi feita pelas freiras do Colégio Sion onde estudei. Porém de minha parte, também tenho uma recomendação ao sr. Aroldo: Já que está aposentado, e por isso dispõe de mais tempo, seria interessante que lesse a Bíblia e pelo menos alguma coisa sobre religiões comparadas. Quem sabe desse modo, o meu colega professor pudesse vir a entender com mais clareza e menos radicalismo a opinião que emiti, e que, longe de ter sido uma crítica ao Sacramento da Penitência, referiu-se implicitamente as decorrências sociopsicológicas dessa prática religiosa no país da impunidade chamado Brasil.
Com relação à carta do sr. Eduardo José Daros, de São Paulo (SP), primeiramente quero agradecer-lhe pela maneira cortês com que se referiu a meus artigos, assim como pelo estímulo para que eu continue a expressar as minhas opiniões. Em segundo lugar, faço questão de citar um trecho da carta do sr. Daros, onde ele assinala: Todos os católicos devem estar atentos e devem usar seus conhecimentos e discernimento, sua consciência enfim, para avaliar atitudes e posições de nosso clero sobre assuntos mundanos, colaborando para que a Igreja Católica não incorra em novos erros.
Justamente esta observação, sensata e lúcida do leitor Daros, inspirou-me a retomar o assunto do pedido de perdão eclesiástico, de tão grande importância e de tantas implicações para a humanidade, sobre um novo prisma: o da viagem de sete dias do papa João Paulo II à Jordânia, Israel e territórios palestinos, iniciada no dia 20 deste, e que incluirá visitas bastante significativas a Belém, Nazaré e Jerusalém.
Sem dúvida, depois do mea culpa pelos erros da Igreja Católica, entre os quais se incluem a perseguição implacável aos judeus ao longo dos séculos, esta é uma viagem importantíssima, e que se reveste ao mesmo tempo de aspectos delicados tanto do ponto de vista moral quanto religioso e político. Mesmo porque, os palestinos esperam que o papa os apóie com relação à sua reivindicação da parte oriental de Jerusalém que se tornaria um Estado independente, enquanto os judeus consideram esta cidade como sua capital eterna e indivisível. E este é um tema extremamente melindroso.
Recorde-se, que a questão da perseguição aos judeus impressiona pelos requisitos de crueldade com que sempre foi desenvolvida, não apenas nos episódios mais marcantes como os da Inquisição e do Holocausto, mas em todas as circunstâncias em que o antijudaísmo se manifestou. E isto, naturalmente, provocou feridas profundas na memória do povo do livro, que manteve na dispersão sua identidade através de sua fé tantas vezes violada de forma brutal.
A explicação para tanto ódio da parte dos perseguidores provém de duas fontes. A primeira está ligada ao papel econômico relevante que os judeus sempre desempenharam. A outra, advém da pecha de nação deicida, formulada pela Igreja Católica e que desencadeou as lendas que redundaram no massacre ao longo dos séculos daqueles que teriam parte com o demônio ou uma natureza naturalmente perversa. Entretanto, como escreveu Amos Oz, militante pacifista e o mais renomado escritor israelense contemporâneo, demonstrando a incoerência da Igreja: Jesus foi um professor judeu não ortodoxo que queria levar o judaísmo de volta ao que via como suas origens puras. O rabbi não era cristão; ele ensinou e debateu em muitas sinagogas, mas jamais poderia ter posto os pés numa igreja, nem feito o sinal da cruz ou se ajoelhado diante de qualquer cruz, ícone ou imagem. Na terminologia moderna, diríamos que ele viveu como judeu reformista e morreu como judeu inconformista.
Amos Oz lança também uma pergunta curiosa: Como o rabino Jesus teria se sentido no interior de uma catedral e diante das manifestações terrenas do poderio católico? De fato, o que veio depois do Mestre parece, em determinadas circunstâncias políticas, nada ter a ver com seus ensinamentos, sendo que a vingança perpetrada por parte dos católicos pela sua crucificação, reveste-se de aspectos tão ou mais cruéis do que o castigo impingido de forma bárbara aos malfeitores ou aos insurgentes daquela época. Há muito, pois, para pedir perdão.
Anteontem o papa João Paulo II esteve no Yad Vashem, monumento dedicado à memória das vítimas do Holocausto. Este foi o ponto culminante da peregrinação, e apesar de não ter pedido o esperado perdão pelo silêncio de Pio XII cujo processo de beatificação está em curso durante o Holocausto, João Paulo II lamentou os atos de perseguição e das manifestações de anti-semitismo dirigidas contra os judeus pelos cristãos em todo o tempo e lugar. Acrescentou ainda que rezava com fervor para que a dor da tragédia judaica no século 20 levasse a uma nova relação entre cristãos e judeus, livre do ódio.
Dessa maneira, João Paulo II está colaborando de forma valiosa para aquilo que parece impossível: a paz na terra. Entretanto, para que se avance rumo a este belo ideal, é necessário que os católicos de fato tirem os judeus da cruz em que estão sendo supliciados há séculos.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina





